—Assim é bom, assim é bom... É o que n'esta vida me tem valido e ajudado nas minhas afflicções.
Voltou-se para o filho, sem uma palavra sobre a sua situação. Instinctivamente affastava uma ociosa confissão de desejos e aspirações tão carinhosamente sentidas que nenhumas palavras saberiam traduzil-as.
Perguntava pelas cousas da casa e referia o que na ausencia de Claudio se tinha passado. Que visse elle o que precisaria em Coimbra, que já começava a haver alguma hortaliça no Serrado de Baixo e o azeite que tinha levado talvez não fosse do melhor.
Tinha vindo um rendeiro do Amial pagar a renda, era preciso experimentar o vinho que havia de precisar de trasfega, e o José, o creado, não tinha geito nenhum para isso. O melhor seria Claudio ir lá passar um dia para vêr todas essas coisas, mesmo porque o dr. Azevedo, de Albergaria, lhe tinha dito que precisava fallar com elle por causa dos fóros de Sernadas. Claudio prometteu voltar dentro de pouco dias. Partiu, com grande allivio de Laura a quem as attenções do marido pela mãe começavam a enfadar e que se sentia estranha áquella atmosphera. Não lhe queria bem nem mal; ignorava-a. Por vicio de educação, por temperamento e inclinação hereditaria estava realmente destinada a ignoral-a perpetuamente.
Em vão Claudio, saindo de Villalva, lhe mostraria o campo em que tantas horas tinha trabalhado, as arvores e as flôres que plantára por suas mãos. Tudo lhe parecia uma simples mania; e cautelosamente a occultava nos salões do pae, para não dar ensejo ao riso das antigas amigas, que lhe mordia a vaidade, amesquinhando o marido.
Ao fim d'um mez de vida idyllica, o contentamento do mavioso casal da estrada da Beira foi subitamente perturbado por um incidente doloroso.
Uma noite, pelas tres da madrugada, Claudio despertou aos gemidos de Laura.
—Que tens, minha filha, que tens?... perguntou ancioso.
Ella continuava gemendo, sem responder, e elle insistia em tom afflictivo:
—Dize, dize-me, minha filha, por quem és... Que tens tu?