—Que homem, que modos estes! E dizem que é bom medico! Ai, Senhor, tomára já isto passado!

Claudio olhava este espectaculo surprehendido, vagueando pelas salas e pelos corredores. O que?! Pois o nascimento era este vil receio da morte e esta ridicula fé nas cousas que hão-de salvar o corpo? Não havia uma religião que libertasse de tantos e tão mesquinhos cuidados elevando a alma em extasis divinos? Não era toda a maternidade, desde o parto e o berço até á formação completa do homem, o modo providencial de pagarmos a divida d'amor e de carinhos que a existencia de cada individuo significa? E, sendo assim, porque tamanha pressa em cuidar do corpo e de passageiras dôres que a resignação, tirada da consciencia d'uma missão sublime, curaria melhor que todas as medicinas? Ainda aqui as aspirações da sua alma vinham bater contra a mais extrema pobreza moral; o desgosto perturbava a piedade que a afflicção da esposa lhe despertava.

No quarto de Laura ouviu-se um grito afflictivo. Fez se um silencio d'anciedade. Os gritos repetiram-se, lancinantes, e, após uns curtos momentos, os vagidos d'uma creança pozeram a casa em alvoroço.

—Felicissima! veio o medico dizer a Claudio. Muitos parabens! É um rapaz!... Adeus que não tenho aqui que fazer. Muito socego é que a doente precisa.

—Muito obrigado, muito obrigado, respondia Claudio acompanhando o medico até á porta.

O medico saiu e Claudio correu apressado ao quarto de Laura. Queria vêr a sua physionomia illuminada de contentamento, queria vêr os primeiros clarões d'essa aurora. Era que a sua alma havia de expandir-se nas auras d'uma vida nova.

Entrou cautelosamente, pé ante pé.

—Entre, entre, disse com affouteza D. Maria Francisca, que estava sentada á cabeceira da cama de Laura. Venha vêr o seu morgado. Muito gordinho e lindo como um anjo!

Claudio aproximou-se da creança, tumefacta e vermelha, apertada em faixas brancas, mas logo a deixou para se dirigir a Laura.

Beijou a mulher timidamente, humildemente, com uma uncção religiosa. Não era o corpo enfermo que os seus labios tocavam, era a imagem em que a graça de Deus incarnára.