—Ora, porquê?!...
—Talvez tu tambem não queiras ter mais filhos?...
—Ai, decerto que não! Um vá. Mais do que um, Deus me livre! Só o que eu soffri!...
—É a boa educação religiosa que vos dão n'esses collegios de beatas.
—Tomara-me eu lá! São umas santas...
—Ninguem te prende.
—Bom. Deixemo-nos de discussões que não estou para me inquietar.
—É melhor, é. Mesmo a unica cousa de que deves cuidar é de não te inquietares. Fazes bem. Has-de tirar-lhe bom proveito! exclamou já ao cerrar a porta e dirigindo-se ao seu gabinete.
Essa noite foi tormentosa para Claudio. As quatro paredes da sua cella asphyxiavam-n'o. Desceu ao jardim e passeiou até á madrugada, meditando no drama da sua desventura. A realidade apparecia-lhe sem attenuantes, as phantasiosas esperanças que por alguns mezes alimentára com uma tristeza resignada voavam como arremessadas ao longe pelo rebentar da metralha. Não queria ter mais filhos! Este pensamento obececava-o. Era a extrema perversão, o repudio completo de todas as leis naturaes, a cobardia e o egoismo, calcando e reprimindo toda a expansão da vida ingenua, um misero e constante terror, substituindo a alegria intensa do peito que canta com a natureza, dos ninhos das aves que adejam nas manhãs d'abril. E todavia era a sua sorte!... A maternidade não transformára Laura; pelo contrario, revelava-lhe o caracter. O amor de sacrificio não viera, mas, em logar d'elle, o egoismo redobrava, tornando-se indomavel.
Durante dois dias, Claudio só trocou com a mulher as palavras indispensaveis; taciturno, nada fazia já para lhe occultar o seu desgosto que era profundo. Intimamente, mantinha talvez ainda uma derradeira esperança, que ella fizesse por amor d'elle, pela sua paz e alegria o que por instincto e instigação da consciencia não tinha podido alcançar. Laura porém conservava-se inteiramente estranha ao que se passava no espirito do marido; julgava-se offendida com o seu silencio. Pois não era uma santa, um anjo, como tantas vezes ouvira aos que a cercavam?!