A sua vaidade não lhe deixava um instante de hesitação. Claudio não podia ter d'ella o menor aggravo. Tudo o que elle fazia caia sob uma condemnação formal, completa. Demais, dera-lhe um filho, fizera por elle esse sacrificio. O filho não era para ella uma dadiva de Deus para melhor cumprir o seu destino no mundo; tinha sido uma tortura supportada por uma victima da sensualidade e do capricho d'um homem. A obliteração do senso moral consumara-se n'essa creatura a que a educação formalista, dando-lhe a apparencia externa, os modos, as palavras e os gestos da bondade, no intimo creára uma plena seccura de coração. Sem as luctas da vida em que se fórma e avigora a alma, repellia como uma offensa todo o esforço e toda a situação que não lhe lisongeasse sem reservas os seus desejos.
Entre Claudio e Laura começou uma verdadeira lucta, surda, sem explosões retumbantes, mas continuada e persistente, manifestando a cada momento uma divergencia de caracteres que, não logrando fundir-se, mutuamente tentavam dominar-se. Os creados, as visitas, o filho, os passeios, de tudo se tirava motivo para discussão que invariavelmente terminava por accentuar uma incompatibilidade de pensamento profunda.
Claudio queria os creados tratados como familiares, bondosamente, sempre propenso a excusar-lhes os erros e as faltas. Laura aborrecia-os e odiava-os cruelmente; batia-lhes por um prato que se partira, por uma fita que uma creada trazia mal posta, porque se demoravam em accudir ao seu chamado. Não havia mez em que algum não fosse substituido.
—Antes um pedaço de brôa, diziam, e o seu socego do que os regalos dos fidalgos. E iam-se embora, maldizendo da casa.
—São do nosso sangue, dizia Claudio á mulher admoestando a; tem as mesmas tentações de descanso e de folgar, os mesmos vicios, o mesmo afêrro aos seus habitos. É preciso tratal-os com caridade. São elles que nos servem, é sobre elles que lançamos todos os trabalhos pesados que não podemos ou nos repugna fazer.
—Pois governa-os tu! Eu é que não estou para isso. Se te incommoda ouvir os meus ralhos, tambem a mim me incommoda atural-os. O que elles são todos, concluia, enfurecendo-se, é uns demonios que não servem senão para me inquietar.
A primeira vez que Laura, depois de casada, tivera uma furia raivosa contra os creados, ficara de lembrança a Claudio.
Era sexta-feira da Paixão. Laura jejuára n'esse dia com todo o rigor que a egreja aconselha, tendo-se previamente informado com o confessor sobre as horas, quantidade e especie de refeição a que devia sujeitar-se, para alcançar todos os beneficios que d'ahi podessem provir-lhe.
Ás dez horas saiu para a sé, de carruagem, elegantemente vestida de negro, levando nas mãos um livro rico, presente do casamento que uma sua parente beata expressamente encommendára em Paris e onde vinha traduzido para francez o evangelho. Na egreja foi sentar-se proximo do pulpito, n'um banco que um conego, antigo frequentador do palacio do Albuquerque, se apressou a mandar-lhe offerecer pelo sachristão, mal a viu. Depois seguiu com grande recolhimento toda a cerimonia, lendo, a cabeça inclinada sobre o livro, erguendo-se apenas de longe em longe para olhar a cruz e o altar.
Á uma hora da tarde entrou em casa para tomar o magro alimento que lhe era permittido, mas ás quatro voltou a sair, sempre de carruagem, para ir vêr a procissão do enterro. Nova visita a casa ao anoitecer, logo seguida de immediato regresso á sé, para assistir ao officio de trevas e ao sermão da paixão. Tinha pressa, para não perder o logar que o conego promettera reservar-lhe.