Ouviu o officio, ouviu os córos e o orgão, pousando graciosamente o livro sobre os joelhos para se entregar a essa delicia, e ouviu por fim o sermão. Quando o pregador, um rapaz que tinha entrado havia pouco para a faculdade de theologia, terminando o discurso e procurando motivos de emoção, clamava no templo sombrio, pedindo um lençol para amortalhar o Christo morto na pobreza e no abandono, Laura, sentindo um fremito mais de temor que de piedade, bateu com a mão no rosto e enxugou duas lagrimas. Depois, deu o braço ao marido, saiu vagarosamente acompanhando a onda de povo que se dirigia á porta da egreja e entrou na carruagem.
—Está frio, disse para Claudio. E este cocheiro é tão descuidado... Nunca se lembra de trazer os escalfadores.
Quando passavam na estrada da Beira, batia a meia noite. Ao entrarem em casa, encontraram um silencio profundo e Laura dizia ao marido, já levemente irritada:
—Adormeceu tudo, pelo que vejo! Parece que ninguem sabia que eu tinha saido e jejuei todo o dia. Que desmaselo!
Ia entrando, desabotoava a capa ao transpor a porta do quarto, quando n'um movimento de surpreza, estacou.
A creada, fatigada de esperar, sentara-se n'uma cadeira e adormecera.
Laura approximou-se d'ella pé ante pé, para mais amargo lhe tornar o despertar, e n'um accesso de colera indiscriptivel começou a bater-lhe e a injurial-a.
—Canalha! Que porcaria! Quem ha de dormir agora aqui?! gritava. O meu regalo era pôl-a immediatamente no meio da rua.
Claudio não se atrevia a pronunciar uma unica palavra.
—E tu então calas-te?!... dizia-lhe a mulher. Que homem este!