Eram estes os fructos da lição que na egreja Laura acabava de receber? pensava Claudio. Era este o modo por que commemorava os soffrimentos de Christo? A surpreza turvava-o inteiramente e, como de costume, a imaginação espraiava-se buscando illusões, para retardar ainda por mais algum tempo a convicção de que a sua vida estava unida á mais cruel aridez do coração em que os seus sonhos de piedade christã tinham de se dissipar.
O filho era um acrescento ás vaidades de Laura. Entravam na sala as visitantes e logo a ama o preparava com rendas e fitas de seda para vir apresental-o. Choviam então as exclamações. Ai! Mas que belleza! Um mimo! Um apetite! E que gordinho!...
—É todo Albuquerque, diziam a meia voz as mais lisongeiras. É o retrato do avô.
Laura passava então momentos felizes. Não era o filho seu producto e propriedade, não vinham os elogios cair directamente sobre ella, juntando-se aos que em solteira ouvia sobre as suas graças e belleza?
A satisfação da vaidade continuava-se agora sob uma nova fórma e, despedidas as visitas, voltava risonha a contar a Claudio o que haviam dito a condessa dos Casaes e a prima Sarmento. Todos o acham um encanto, uma belleza!...
O marido ouvia; o contentamento da mulher despertava-lhe o desprezo que por ella começava a ter, lembrando-se da indifferença com que abandonára o filho a uma ama, da colera com que mandava affastal-o para que os seus chóros não a importunassem e principalmente do seu receio louco de ter novos filhos.
Comparava a mãe que idealisára, os olhos cavados e os braços doridos das longas vigilias a amamentar os filhos, com a imbecilidade risonha e paramentada que tinha deante de si; a convicção do naufragio das suas aspirações arreigava-se-lhe no espirito. Nem já o filho lhe podia reanimar esperanças O que seria d'elle creado n'aquelle ambiente?!..
Laura continuava sempre estranha ao que se passava no pensamento de Claudio.
A cada passo o contrariava, com a sêde de dominio e posse a que a tinham habituado os mimos dos paes, emquanto solteira, e que vira confirmados pela submissa obediencia com que o marido se curvára a todos os seus appetites durante os tempos de gravidez. Queria saber todos os seus passos, queria que nunca se separasse d'ella. Não tinha a liberdade de sair sem previamente lhe dizer onde ia e para que. Era um passeio em que procurava concentrar-se algumas horas na reflexão sobre a sua malograda existencia para o trabalho e para a virtude? Esperasse, que ella iria tambem. Eram negocios que tinha a tratar? Escusava de sair e de a deixar só, tudo se regularia por meio de cartas; e punham-se os creados em movimento. O amor em Laura não era o ardor de sacrificar-se á vida d'alguem, de viver para outrem, era a paixão de possuir e conservar só para si a vida d'um estranho que lhe trazia gozos e commodidades. Por isso dizia que tinha muito amor ao marido e ao filho, e tomou por ingratidão o descontentamento de Claudio, que percebia sem poder explical-o.
—Ah! a inconstancia dos homens! exclamava. O que eu lhe ouvi e o que agora vejo!...