Succederam-se longos mezes sem que a situação se modificasse apparentemente, porque no fundo ia-se cavando a extincção de todo o affecto conjugal. Era uma lucta surda, sem expansão ruidosa, mas constante, inevitavel, entre dois caracteres oppostos e entre duas maneiras de conceber a vida, o egoismo que se occulta em convenções de religião e de bondade, e a virtude que rudemente, por um trabalho assiduo, procura servir o proximo.
Ao fim de dois annos de casamento, Claudio não tinha uma hora sua, para os seus prazeres, para os seus estudos ou para o seu trabalho; a sua existencia estava completamente absorvida pelas exigencias de Laura, pelas suas recepções, pelas suas visitas, pelos cuidados e deligencias que lhe impunha, continuadamente a caminho da pharmacia ou do consultorio, se a mulher sentia o mais ligeiro cansaço ou se o filho se mostrava impertinente.
O gabinete em que reunira os seus livros, sonhando uma vida de benedictino, affagada pelos carinhos vigilantes da esposa, essa cella em que, lendo e pensando, havia de alcançar o conhecimento da verdade, que toda a vida fôra a sua ambição, para lhe conformar a existencia, estava hoje convertido n'uma simples sala onde cada dia, em trajes bem talhados por alfaiates de fama, ou aguardava a chegada dos convidados que vinham festejar os annos das pessoas de familia—os pretextos de festas multiplicavam-se,—ou pacientemente esperava Laura que, sem se dar pressa, rematava a toilette para passeiar de carruagem, ou se consumia em qualquer outro frivolo mistér.
Perdia-se o tempo e a fortuna soffria. Os tres a quatro contos de réis de renda que Claudio possuía e que em Albergaria lhe permittiam uma vida lauta, sob o governo burguez de sua mãe, nas mãos de Laura eram insufficientes para os seus habitos e costumes fidalgos. Era preciso um cocheiro e um trintanario, um jardineiro, um escudeiro, um hortelão, uma creada para o serviço de Laura, uma outra para a cosinha, uma outra para ajudante da cosinheira, mais outra para o serviço das roupas, mais outra para o filho, fóra o pessoal incerto de lavadeiras, de recoveiros, de engommadeiras e as innumeras gentes que frequentavam a cosinha da pequena casa da estrada da Beira.
Claudio calculava. Em dois annos tinha consumido quatro contos de réis além dos seus rendimentos. Era a ruina. Queixava-se a Laura.
—Tu bem sabes que não se póde viver com menos! respondia ella com vivacidade. Só se queres que eu lave a roupa e faça a cosinha...
—Não, mas tudo tem limites.
—Tem muita graça essas economias! Quem não quer gastar, não se casa. Ou então casasses em Villalva, com alguma rapariga de pé descalço. Não viesses procurar uma pessoa fina.
—Talvez não tivesse sido infeliz...
—Pois eu ainda mais feliz seria! Estava em casa de meus paes muito bem, não me faltava lá nada. Escusava de me vir metter n'este inferno.