Claudio calava-se perante os modos irritados da mulher. Por triste experiencia sabia que não lograria convencel-a, e fugia de violencias inuteis. Interiormente, porém, o desengano consumava-se e o desprezo crescia, illuminado de rapidos clarões de revolta.
Começava agora a manifestar-se d'uma maneira bem patente a sêde de libertar-se do jugo. Entrava n'um periodo de desespero. Os momentos de tranquillidade em que o espirito se lhe desanuviava e a alegria parecia voltar, e que d'ordinario eram os que passava conversando com antigos companheiros, já não significavam esperança; eram apenas o natural repouso das cogitações em que a sua infelicidade se revolvia, reacção do pensamento fatigado de tristeza e buscando espontaneamente uma atmosphera sã.
Intimamente, a desillusão era perfeita. Sabia que não podia esperar de Laura outra cousa que não fosse a futil existencia que até alli tinha levado; a educação, a estreiteza de espirito e uma vaidade sem limites venciam todas as tentativas de conversão que o marido tinha tentado, emquanto o habito de mandar e satisfazer todos os caprichos a tornava insolente e colerica perante a mais pequena contrariedade.
—Onde vaes? perguntava ao marido, vendo-o pegar na bengala e pôr o chapéu na cabeça.
—Passeiar e tratar umas cousas na baixa.
—Mas eu preciso sair tambem...
—Sae com o pequeno. Fica-te ahi a carruagem.
—Bons costumes! E muito delicados...
Claudio não respondia; continuava o seu caminho. Não tinha negocios alguns a tratar; o que queria era libertar-se d'aquelle ambiente que o suffocava, distrair-se em extensos passeios á beira do rio, na contemplação das aguas espelhadas e dos vergeis mimosos ou encontrando quem lhe fallasse de coisas ociosas que eram para o coração dorido um rapido refrigerio.
Bem sabia que por cada vez que desobedecia a Laura teria alguns dias de despeitado mutismo, mas a frequencia e a injustiça dos repetidos amuos haviam-n'o tornado indifferente a essa arma que a mulher usára com proveito nos tempos em que elle esperava vencel-a e conquistal-a pela doçura e pela paciencia. Agora penetrava-o o desengano e abandonava Laura ao proprio desespero, que era apenas o castigo da ruindade dos seus sentimentos.