Foi n'esta situação que uma manhã o vieram encontrar as peiores noticias de Villalva. A mãe mandava-o chamar; tivéra um novo ataque de paralysia e queria vêl-o. Claudio não se surprehendeu; ha muito esperava essa má nova. Via o declinar da sua velhinha, como lhe chamava, que já por duas vezes fôra acommettida de ligeiros insultos apopleticos; o proprio medico não lhe tinha occultado que era provavel que se repetissem e que constituiam, uma ameaça grave.
Claudio partiu na convicção de que ia vêr a mãe pela derradeira vez. Laura quiz acompanhal-o, não porque sentisse o menor respeito pela sogra, de cuja rudeza se envergonhava, ignorando o que n'ella havia de santo e de grande, mas porque julgava ser proprio de gente fina acompanhar o marido em occasião tão difficil. Elle, porém, instou e foi só; talvez exaggerassem o estado da mãe, de lá lhe mandaria noticias e depois se resolveria como fosse melhor. A verdade era que queria vêr-se sósinho com a mãe e affastar de si, nos seus ultimos momentos, tudo aquillo que podesse perturbar-lhe a concentração na saudade d'aquella que fôra a maior affeição da sua vida.
Em Villalva, esperava-o o dr. Carvalho. Não saira d'alli toda a noite, dizia, nem sairia emquanto Claudio não viesse. Escusava dizer-lhe, acrescentava, que o estado da doente era muito grave.
—Os annos são muitos, meu amigo, e isto não póde ir longe. É a sorte que a todos nos espera, e o dr. Claudio, como homem intelligente que é, deve ter coragem para se conformar com o destino.
Claudio apressou-se a cortar o enfadonho discurso do doutor.
—Posso fallar-lhe, não posso?
—Póde... Ella por emquanto está ainda bem. Mas não convém conversar muito. Sempre excita...
Claudio entrou no quarto da mãe. Estava deitada, os olhos semi-cerrados, unicamente acompanhada pela filha, que se sentava á cabeceira da cama.
A filha, quando viu o irmão, levou rapidamente o lenço ao rosto a occultar as lagrimas que lhe rebentaram n'uma contracção afflictiva. Depois, dominando-se, chamou baixinho:
—Minha mãe, minha mãe?