—Não sei... Quando ouço essas coisas, parece-me que não são comigo. Nunca acredito no que me dizem.
A conversa não continuou. Claudio, confundido, despediu-se de Maria.
—Vou ainda dar um passeio, disse. O luar está tão lindo!...
Desceu a tomar a estrada que seguia á beira da varzea ladeada de oliveiras. A lua subia n'uma serenidade divina, espargindo docemente a sua luz, e do arvoredo quieto e dos prados onde a neblina pousava, erguia-se uma tranquillidade augusta em que se sentia a terra latejante de vida. Claudio parou, voltado para o nascente, ouvindo na contemplação as vozes mysteriosas que tantas vezes interrogava. Era certo, era certo! As aves que arrulhavam na rama dos pinheiros, o musgo que rastejava pelos troncos carcomidos, a pedra alva e fria que o regato polia, as aguas que desciam pressurosas, todos n'um côro unisono cantavam louvores ao seu destino. Só elle estava proscripto da alegria, pela propria loucura!
Sentou-se á beira do caminho, a cabeça pendida, amparada entre as mãos, n'uma agonia de tristeza.
D'onde lhe vinha essa dôr que tanto contradizia a natureza feliz? Bem o sabia; o seu coração já não se illudia. Uma oppressão de inveja e de ciume,—eis o segredo de tanta mágoa. Maria tinha o seu namorado. Corára quando o avistou e quiz logo voltar a casa. Amava-o, era indubitavel. Em poucos mezes estariam casados; os sinos da egreja haviam de celebrar na madrugada a sua união e elle havia de ouvil-os annunciando-lhe a sua desgraça. Que importava?! Não fizera voto de castidade? Não era Maria uma simples imagem perante a qual ajoelhava na adoração da simplicidade? Tivesse animo, desprendesse-se por uma vez das ambições terrenas, elevasse a sua alma ás regiões de eterna beatitude.
Embora! Repetia as palavras do Evangelho: «O espirito é prompto mas a carne é fraca», e não conseguia libertar-se da propria fraqueza, reconhecendo-a e condemnando-a na sua consciencia. Todos os raciocinios eram impotentes para dominar a dôr. A lembrança de que estavam terminadas as horas em que a voz de Maria, como um canto de feiticeira, lhe fazia esquecer toda a desgraça da sua vida, esmagava-o. Iam roubar-lhe todo o conforto da sua existencia.
A noite foi de agitação. Aos primeiros alvores da manhã, por que anciava, ergueu-se e de casa começou a espreitar a saida de Maria. Não tardou que ella apparecesse á porta, com um cesto de roupa á cabeça. Ia á ribeira lavar. A rapariga levantou os olhos para a casa de Claudio.
—Meu Deus! disse elle comsigo. Suspeitará o meu tormento?
E saiu ligeiro, pela porta do quintal, tomando por atalhos, a cortar-lhe o caminho. Chegou abaixo, proximo do rio, e começou a subir a encosta. Em breve a encontrava.