—Muito mal, muito mal, por milagre escaparia, dissera o medico meneando a cabeça.

Por acaso, Claudio estava no jardim, olhando o pôr do sol, quando os visinhos trouxeram o corpo do pae de Maria. Sabia que n'aquelle dia elle havia de ter conhecimento da gravidez da filha e, adivinhando immediatamente o que se passava, correu a esconder-se em casa antes que se aproximassem e o vissem.

Os braços pendidos, o olhar desvairado, deixou-se cair sobre o escabello da sala, immovel de assombro. D'esta vez era certo o crime! Fôra elle, fôra elle que o assassinára levando-lhe a deshonra ao lar! E não morria tambem!... Pasmava da propria frieza e indifferença. Olhava o seu corpo, os seus braços, as suas mãos, o seu peito como duvidando da sua existencia. Respirava, vivia, era o mesmo, elle, agora assassino, que n'aquelle logar, n'aquella sala ajoelhára erguendo a Deus as suas primeiras orações e se prostrára perante o cadaver da mãe pedindo á sua alma inspiração e conselho! Não, não podia ser! Era outro, era outro!...

O assombro crescia e a repugnancia por esse novo homem redobrava.

Levantou-se, pé ante pé, e foi á porta espreitar se havia alguem no pateo. Ninguem! Provavelmente tinham corrido todos a casa do velho. Aproveitou o ensejo e fugiu a perder-se nos montes, pelos caminhos desertos, escondido, ao abrigo dos muros que vedavam os campos.

Esperou a noite que caiu serena, sem luar, estrellada e profunda. Ia descer á aldeia. Para quê? Não era melhor seguir errante, em penitencia, expirando o seu crime, a esmolar por terras ignoradas e a servir desconhecidos, descalço, miseravel, rojando-se humildemente?

Maria, Maria!...

O amor vencia todas as dôres e ainda n'aquella angustia os braços estendiam-se a procural-a.

Desceu, e começou a vaguear em volta da eira de Maria. Tudo dormia n'um grande silencio e apenas por uma fresta se percebia um reflexo de luz.

Tinha fome. Voltou a casa a pedir a ceia.