—Ai que desgraça aquella do pobre tio Manoel! exclamou a velha creada ao vêl-o.
—Já sei, já sei, apressou-se Claudio a interromper com firmeza. Venho agora de lá. Muitos annos, muitos annos... Coitado!
—Deus Nosso Senhor o salve que ainda faz falta áquella pobre gente...
—Hoje sim, hoje já me deixa mais contente, dizia a creada alguns momentos depois levantando da meza os pratos vasios e estranhando a voracidade com que Claudio tinha comido.
—O passeio foi larguito, replicou elle como que explicando.
Levantou-se e tornou a sair. Queria vêr Maria. O que seria d'ella?
Dirigiu-se ao logar em que costumava fallar-lhe e no ponto em que o muro era mais baixo saltou para dentro da eira. Esperou. Não vinha ninguem. Não se lembrava ella de que Claudio estava alli ou não queria tornar a vêl-o? Um suor de afflicção lhe cobria o corpo e o receio da condemnação de Maria vencia o remorso do crime.
Impaciente, atravessou a eira e foi collar o ouvido a uma pequena fresta que dava luz á cosinha. Silencio! Ninguem se movia.
Recuou. Reflectia agora na sua imprudencia. Podia ter apparecido alguem e aquelles passos occultos seriam a confissão do seu crime. Coragem! Porque não iria antes francamente saber do seu visinho? Era natural. Demais, já dissera á creada que tinha lá ido e precisava que não o encontrassem em mentira.
Saltou novamente o muro. Sem hesitar, como possuido d'uma resolução serena e inabalavel, subiu os degraus da casa de Maria, lançou a mão á aldraba da porta e, cauteloso, abriu-a suavemente.