Foi Maria que veio vêr quem entrava, assomando á porta que communicava a sala com o interior. Parou um instante surprehendida. Na escuridão só cortada pela languida claridade que vinha da pequena lampada ardendo aos pés d'um crucifixo, a sua physionomia mostrava a mais profunda mortificação. Ia queixar-se, ia perguntar a Claudio porque só agora vinha e a abandonára. Mas elle, adeantando-se, apertou-lhe freneticamente as mãos e o peito agitado pelos soluços, sem proferir uma só palavra, fitou-a, deixando correr as lagrimas.

Com um instincto seguro, Maria comprehendeu o que se passava na alma de Claudio e transformando em piedade os queixumes que trasbordavam do seu coração:

—Não chore, não chore, disse consolando-o. Foi a minha sorte, foi a minha sorte! Foi Deus que assim o quiz.

As lagrimas de Claudio redobravam, mas agora de gratidão pelo amor de Maria. Era ella, a victima, que vinha consolar o criminoso! Dominava-o uma impressão de espanto.

Encontrava ali, n'aquelle pobre tugurio, o que fora a maior ambição da sua vida, o amor. N'um lampejo, em meio da vertigem de sentimentos que lhe dilacerava o peito, lembrou-se de Laura e comprehendeu toda a grandeza de Maria. Para Laura, amar era possuir, era guardar zelosamente uma fonte de gosos; para Maria, amar era servir, era sacrificar-se e consumir se protegendo uma vida estranha e abdicando de toda a dôr e de todo o prazer da propria existencia. Não podia furtar-se a um secreto contentamento descobrindo em plena consciencia o thesouro de que estava senhor. Negra aberração! pensava, sentindo-se aviltado. Tambem á hora do crime tinha alegrias! Oh, ainda uma vez, mysterio amargo!...

O medico voltou de manhã e achou que o doente estava melhor. Já ouvia e já se lhe divisavam ligeiros movimentos.

—Temos homem! disse voltando-se para a familia, quando o examinava, curvado sobre o leito. Com setenta e sete annos! É preciso ser rijo.

Claudio, ancioso por se informar do estado do pae de Maria, espreitára desde o alvorecer a vinda do dr. Carvalho. Vira-o entrar em casa d'ella e veiu para o jardim, a limpar as hervas d'uns vasos de flores que estavam pousados sobre o muro sobranceiro á rua.

O dr. Carvalho, ao sair, immediatamente deu com os olhos n'elle.

—Ora isso é que é madrugar, disse chamando a attenção de Claudio.