—A vida está para aquelles, disse despeitado por não ter recebido convite. O pae e o tio a pouparem para estes agora gozarem!
A companhia ia alegre.
As Silvas palravam com o advogado; interiormente sonhavam ali um casamento, sua ambição capital. Fallavam das suas flores, das suas gallinhas, dos cuidados que tinham pela adéga e pelo lagar d'azeite, procurando com deligencia pôr em relevo as suas virtudes domesticas. Mutuamente se elogiavam; uma sabia de cosinha como ninguem, não havia má cosinheira ás ordens d'ella; a outra, diziam, tinha nascido para homem, constantemente nos campos, á frente dos bandos na apanha da azeitona, entre as vinhas, no outomno, com grande chapeu de palha, dando ordens e berrando aos trabalhadores:
—Olha como levas esse poceiro! Não fazem nada em ordem! Que estupidos! Não póde a gente ter um momento de descanso...
O advogado ouvia e procurava palavras de admiração.
—Isso hoje é muito raro, dizia V. ex.as foram educadas á antiga. Bons tempos! As meninas d'agora vão para os collegios e vêm de lá anemicas, sem prestimo nenhum. Levantam-se ao meio dia e só servem para tocar piano.
Tambem elle pensava em casamento: queria cousa de conveniencia. A sua ambição era um dote de dez a doze contos de réis. Não o tinha ainda encontrado, mas não desanimava nas suas deligencias.
O dr. Carvalho procurava associar-se á conversação, ora com gracejos, ora lisongeando as Silvas.
—Muito tolinhas, pensava. Com algum geito ainda vêm a cair.
Claudio conversava tambem, dirigindo-se á mulher do dr. Carvalho e a Emilia, empenhado em prender esta ultima aos seus sentimentos. Apontava tudo o que na estrada ia vendo de pittoresco ou de bello, os carvalhos nodosos do Casal Novo, projectando-se nos montes nus e asperos, a varzea de Villar humida e mimosa, emoldurada nas montanhas que se encastellam em torno.