—Olhe, deixei-a agora mesmo a costurar na sala. Fui a casa beber uma cerveja, que este calor mata-me! Nem posso trabalhar, tem-se me atrazado o serviço!...
Claudio aproveitou o ensejo.
—Não quero interrompel-o por mais tempo, á noite conversaremos com vagar... Então, se me dá licença, vou ali vêr a sr.a D. Emilia... Até logo...
—Não se incommode... dizia ainda para Ricardo que se dispunha a descer a escada e a acompanhal-o até á porta.
Os poucos passos que medeavam entre a repartição de fazenda e a casa de Emilia foram para Claudio lentos e compassados. Dominando os movimentos, por um esforço da vontade, julgava dominar a anciedade e porventura libertar-se assim da inquietação. Á porta bateu cautelosamente, o peito opprimido, suffocado de impaciencia. Lembrava-se da primeira vez que ali fôra. Tambem então estava ancioso, em alegres esperanças de conquista, e agora,—quanto caminho andado em tão breves dias!—ali estava novamente mas escravisado pela paixão, torturado de duvidas, turvado pela dôr.
A creada desceu, como de costume, abriu, e d'esta vez, sem hesitações, exclamou:
—Ah! o sr. dr. Claudio!... Faça favor de entrar. A sr.a D. Emilia está na sala!
Claudio subiu. Entrou na sala, quando Emilia, já de pé, tendo ouvido a sua voz e apressando-se a deixar a costura, vinha ao seu encontro.
As mãos apertaram-se n'um movimento de franca e irreprimida alegria; n'um momento pareciam magicamente dissolvidas todas as duvidas e todas as dores.
Sentaram-se e a conversação começou precipitada, rapida. Sentiam-se ambos bem; á frescura da sala com as janellas semi-cerradas juntava se a frescura do espirito faiscante no contacto dos dois corações amorosos.