Para Claudio as Caldas eram uma estação deliciosa; as horas passavam se ligeiras em concertos, em bailes, em passeios, n'uma festa continuada de graça, de luxo e de elegancia. Lembrara se lá muitas vezes de Emilia. Como ella havia de apreciar aquelles dias que correspondiam tão bem á delicadeza da sua educação! O peior fôra a constipação que não o tinha deixado concluir o tratamento. Seria outro anno! Paciencia. Tambem tinha a compensação de se vêr na tranquillidade da sua casa.

Emilia estava um pouco surprehendida com a doença de Claudio. Só pelo jardineiro que trouxera o ramo de jasmins soubera do seu regresso, que o Ricardo, conforme velhos habitos, em casa só parava para dormir e comer, pouco fallava. Mas suppozera que se tinha aborrecido da vida e da gente que elle chamava ironicamente a gente fina, e por isso voltára ao ninho.

Ella, tambem, tinha passado mal, do calor, provavelmente; uma inapetencia e uma fraqueza que a não deixavam um instante. Não tinha saido de casa, nem uma só vez, depois que elle partira.

N'este ponto, a conversa esmoreceu e fez-se um momento de silencio. Claudio fitou Emilia, viu-a pallida, os olhos cavados, todo o viço minado pela paixão.

Perpassando-lhe pela mente, n'uma vertigem, a lembrança da torturante saudade que soffrera, arquejante de desejo, caiu de joelhos, e beijando-lhe as mãos que apertava nas suas convulsivamente:

—Emilia! Emilia! balbuciou com a face occulta no regaço.

Ella, muda de surpreza e entorpecida d'amor, mal tentou desembaraçar-se dos laços que a prendiam.

De repente, Claudio levantou-se, como n'um subito e apavorado despertar:

—Perdoe-me, perdoe-me pelo amor de Deus, disse para Emilia.

E tremulo, desvairado, correu a esconder-se em casa.