IV

Olhe, ahi vem o dr Carvalho que lhe póde contar alguma cousa, dizia o boticario para o recebedor, atirando os dados sobre a taboa do gamão.

—De quê? do calor? perguntava o Carvalho entrando. Tem sido de morrer. Esta manhã tive de ir a Sarnadas...

—Mas responda lá, é verdade ou não é?

—Respondo... mas hei-de saber primeiro o que me pergunta.

—É verdade que o Claudio vae todas as noites, á uma hora, para casa da D. Emilia emquanto o bebado do Ricardo está no melhor do seu somno?

—Ora...

—Ora!... Elles até já teem saido a passeiar! Ainda a semana passada umas mulheres, que iam ás tres horas da noite para a feira de Monteiros, os encontraram sentados lá em baixo, ao pé da fonte. Tambem agora só de noite... que de dia não se pára com calor.

—Eu acredito lá n'isso! Quando mesmo fosse verdade o que vocês querem dizer, ella ia deixar o marido, os filhos e a creada, e sair para fóra de casa! Bastava que um d'elles accordasse para a comprometter.

—Vê o doutor o Claudio por aqui?!... Metteu-se na toca como um rato dentro do queijo. É que arranjou coisa melhor que a nossa companhia. E faz bem. Olhe que eu antes me queria com ella aos couces que com o nosso recebedor aos beijos. Não é peste nenhuma.