—Não sei... essas cousas são faceis de dizer. Vejo-os em minha casa todas as semanas, ainda não descobri n'elles signaes de namoro. Conversam, jogam e até ás vezes passam quasi toda a noite sem se aproximarem um do outro.
—Não que elles iam mesmo namorar-se para sua casa! Se não fallam um com o outro é porque andam entendidos. Para mim é mais uma razão. Que o doutor deve defendel-os... Tambem nos saiu bem bom...
—Adeus, adeus, que estão hoje com muito má lingua, apressou-se o Carvalho a dizer, fugindo com receio de que lhe fallassem na Silva que continuava a seguir, com boas esperanças de conquista.
Estavamos a este tempo em fins d'agosto, mez e meio depois que vimos Claudio saindo como um louco de casa de Emilia. De facto, retraira-se; com o pretexto nos seus estudos e na sua debil saude, fechara-se em casa e quasi ninguem o via. Entregara-se por completo ao drama da sua existencia.
Aquelle dia em que de volta das Caldas tinha ido vêr Emilia, ficára-lhe na lembrança. Fôra a hora mais cruel de toda a sua vida. Recordava-o a todo o instante, como se trouxesse cravado no peito um punhal que lhe rasgava as carnes a cada movimento.
A mãe estranhára-lhe a pallidez vendo-o entrar. Não era nada, resultado da fraqueza e do calor; ia dormir um pouco... Fechou-se no quarto, atirando-se para um sofá, succumbido de pavor. O que fôra? Que loucura o fizera ajoelhar aos pés de Emilia? O que pensaria ella? Perdel-a-ia, julgando-o um vulgar conquistador, ou começava uma vida d'amor? Que fizera dos seus propositos de amisade e da energia com que havia de dominar toda a paixão? Por outro lado, pensava, ella resistira frouxamente quando elle lhe apertou as mãos. Era pois verdade que o amava?
Um refrigerio se lhe derramava nas veias. E a mãe? Ai! mentira-lhe; tão cedo olvidára as torturas da noite! Não, não seria assim, não seria levado por uma hora de desvairamento. Havia de voltar a casa de Emilia, poderia agora abrir-lhe completamente a sua alma, fazer-lhe inteira confissão do seu amor, das suas duvidas e ella, se o amava,—era certo, era certo!—havia de querer, como elle, uma vida pura, uma vida sem macula, em que nenhum tivesse de córar nem perante o mundo, nem perante a propria consciencia.
A consciencia! Voltava esse estranho phantasma. Onde, em que livros, em que systemas aprendera a guiar-se por esse feitiço interior, onde vira provada a sua existencia? Imaginação doente! Não havia consciencia, não havia deveres deante de dois entes aproximados pelos impulsos do amor que os abrazava e confundia. Ah! pensasse baixinho... estava ali sua mãe, sentia-lhe os passos, vinha talvez escutar, saber se dormia. Não fosse adivinhar o que lhe passava pelo espirito e morrer na cruz de tamanha dôr! Que lhe dissera ella na estreita sala de Villalva, pelas noites de luar, ao pé do Christo? Lembrava-se agora! A consciencia, a consciencia!
Fôra alli que se lhe revelára essa apparição que o vigiava implacavelmente.
Havia de obedecer-lhe. Sentia um fremito de coragem que o erguia do abatimento e da duvida. Mas não!... Delirava.