Não eram escrupulos que o atormentavam, era o receio de perder o amor de Emilia, de se ter apartado para sempre do seu coração, ferindo-a na sua virtude. A que baixeza descera!

Não eram melhores os remorsos, a consciencia atribulada, que esta misera prisão á fragilidade d'uma mulher? Quem lhe déra libertar-se! Porque não havia de o fazer? Para que voltaria a casa de Emilia? Cobardia! Havia de a insultar e fugir? Pediria primeiro o seu perdão,—ai! quanto lhe seria doce! depois... talvez, talvez...

E o seu espirito perdia-se n'um labyrintho e o coração vogava em ondas de dôr.

N'este martyrio passou todo o dia. Ao jantar queixou-se á mãe. Ainda não se sentia bom. Se fosse estar dois dias em Villalva, poderia fazer-lhe bem a mudança d'ares. No dia seguinte resolveria, conforme fosse a noite.

Interiormente, esta palavra fazia-o tremer. A noite! O que iria passar-se entre elle e Emilia? Contava uma a uma as horas que o aproximavam d'esse momento decisivo e, por mais doloroso que o imaginasse, apetecia-o.

Ás oito horas batia á porta da pequena casa da rua da Cruz. A custo subiu a escada; o corpo mortificado arrastava-se pesado e lento, banhado n'um frio suor d'agonia.

Mal entrou na sala, deixou-se cair sobre uma cadeira. Emilia estendeu-lhe a mão, silenciosa, mais pallida ainda do que elle a vira de manhã, com lagrimas de emoção a toldarem-lhe os olhos. Claudio olhou em volta. Estavam sós. Podia fallar.

—Por certo me terá julgado severamente, mas se quizer fazer-me a esmola de me ouvir,—é uma esmola,—ha-de perdoar-me.

—Não tenho que lhe perdoar, interrompeu ella tremendo, escusa de me dizer cousa alguma, sei muito bem o que se passa no seu espirito... Eu é que sou infeliz!

E as lagrimas desprenderam-se-lhe pelas faces.