Fez-se uma longa pausa e a conversação continuou.
N'esta mutua confissão em que o amor desabrochava, sentiam-se ambos bem; partiram-se as cadeias que os prendiam n'um mutismo oppressivo e as palavras voaram como um bando de rolas soltas á luz por uma alegre madrugada.
Claudio podia contar todos os soffrimentos por que passára e Emilia responder-lhe, descobrindo a seu turno o intimo do seu peito.
Tambem ella tinha soffrido muito ao vêr crescer esta affeição. Chamava-lhe assim, repugnava-lhe a palavra amor em que sentia mais de perto a quebra da fidelidade conjugal.
O adulterio repugnava-lhe, invocava para o repellir o dever e a religião, sem todavia sentir a profundeza d'aquellas obrigações.
Repugnava-lhe porque era feio, era de mau gosto, contradizia os preceitos da sua educação e não cabia no convencionalismo estreito que era toda a sua regra moral, vasia de sentimento.
Envergonhar-se-ia de ser infiel ao marido pelas mesmas razões que a levavam a passar noites crueis procurando tirar dos seus farrapos trajos elegantes, para competir com a gente fina cujas relações frequentava.
Claudio ouvia e applaudia, penetrado de admiração perante tão sublime virtude, ingenuamente julgando ter encontrado par ás suas duvidas e atribulações, onde de facto só havia um fragil simulacro de grandeza moral.
Esta noite, que se annunciára tormentosa, derramava em ambos os amantes uma tranquillidade profunda.
Tudo agora ficava determinado d'uma vez para sempre.