Perdoada a falta de Claudio, que se punha á conta do arrebatamento produzido pela presença de Emilia ao fim de tantos dias de saudade, quebrada toda a repressão dos sentimentos intimos, podia assim reconhecer sem remorsos o seu mutuo affecto todo impregnado de respeito.
Seriam como irmãos; elle com a sua amizade trazer-lhe-ia lenitivo á tristeza da infelicidade conjugal, aconselhando-a, guiando-a e amparando-a pela presença d'um coração fiel, ella havia de banir a aridez das horas de estudo de Claudio pelas graças do seu espirito. A vida tornava-se perfeita.
O encontro d'aquellas duas almas fôra um bem providencial para ambos, perdida uma em busca de carinhos, perdida outra na desventura d'um destino amargo.
Duvidas, saudades, hesitações, tudo se dissipava nas brizas propicias do amor triumphante. O espirito vergou-se ao sentimento e acceitou, sem perplexidade nem confusão, esse flamejar de desejos, tomando-o por uma aurora luminosa e serena.
Claudio entrou no seu palacio, fatigado mas alegre, a refazer-se n'um somno povoado de venturas. No dia seguinte podia dizer á sua mãe:—Graças a Deus, estou melhor;—e ella veria contente, como a benção das suas orações, a vida e o rubor voltar ao rosto do filho.
Pela calma do estio as flores beberiam o viço nos regatos e a natureza havia de povoar-se de vozes harmoniosas e clementes, cantando em côro com os amantes felizes.
Era boa occasião de voltar ao estudo, satisfeitas as vagas aspirações sentimentaes que nunca deixavam de o seguir. Tinha o affecto da mãe e de Emilia. Que mais precisava? Devia mesmo romper com perniciosos habitos de ociosidade provinciana, gastando-se a inquirir das intrigas do soalheiro e expondo-se a ouvir, com a brutal liberdade da gente rude, allusões ás suas relações com Emilia que outros poderiam interpretar injustamente. Por isso deixára de frequentar a botica, armado para uma vida de pureza e de saber. Na seccura das suas preoccupações racionalistas infiltrava-se um desconhecido fermento de poesia cujos primeiros e rapidos movimentos lhe davam a illusão da felicidade.
D'essa illusão partilhava Emilia, e para ella era completa. Rapidamente esquecera o dia em que Claudio voltára das Caldas; na sua leviandade mulheril, entregava-se sem reservas ao prazer da hora presente.
Ella, tão pobre de carinhos, abandonada do marido que cada vez mais se entregava aos seus vicios, sentia como uma infinita suavidade a nova atmosphera de affecto que a envolvia. Já não havia dores que fossem unicamente suas, já não havia cuidados que não tivessem confidente, afflicção que não tivesse soccorro. A imagem de Claudio entranhava-se-lhe no coração como o supremo bem e sabedoria. Era bello tudo o que elle amava, era bom quanto elle julgava bom. Deixára de a tentar o ruido das festas, a vã agitação por que algum tempo suspirava, para esquecer as mágoas; a natureza e o seu silencio ou os seus mysteriosos murmurios diziam-lhe agora mais que todos os artificios que com delicia lhe deslumbravam os olhos.
Para elle, ainda não chegára a hora de inteira tranquillidade. Estava bem, não havia remorso que lhe pesasse, poderia confessar toda a sua vida. Mas não a confessava. Porque? Não era tão puro, tão casto o seu amor por Emilia? Não córava elle lembrando-se que algum dia pensára em fazer d'ella sua amante? Não estava resgatada essa affronta, que nunca communicára a ninguem, pelo respeito com que agora a idealisava, santificando-a e adorando-a como martyr? Embora!