Não ousava fallar de Emilia, temia que alguem manchasse com ruins desconfianças este amor immaculado. Nem á sua mãe o confessava; na ingenuidade do seu pensamento condemnaria talvez o affecto por uma mulher casada e não poderia comprehender a isenção do filho.

Por isso se calava, por isso fugia d'antigos companheiros com que francamente ria de amorosas aventuras picarescas, arrastando dentro de si, como um pendulo que oscilla e mortifica, esta constante reserva e o temor do que elle julgaria injustiça. A sua vida era feliz, mas apertava-se dolorosamente, cercada de phantasmas.

N'este idyllio se consummiram quatro mezes. Claudio frequentava pouco a casa de Emilia, sempre perseguido d'uma vaga suspeita do naufragio da honra da sua amada.

Encontrava-a em casa do dr. Carvalho uma vez cada semana, via-a na egreja, acompanhava-a nos seus breves passeios. Só de longe em longe a procurava na rua da Cruz, contando os dias, para que a frequencia se não tornasse notada da visinhança. Inutil cuidado; o cynismo vulgar, melhor inspirado do que o idealismo poetico, não se illudia sobre a realidade, satanicamente commentava a familiaridade e sorria.

Uma tarde, nos primeiros dias de dezembro, á hora em que o sol ia baixando e um frio sereno e humido annunciava os gelos da noite, Claudio entrava na villa, regressando d'um passeio a Palhares, com Emilia, com as Silvas, a mulher do dr. Carvalho e o Maia.

Este, tendo partido um casamento rico que tentára na Beira, voltava-se agora com mais insistencia para a Silva, tanto mais que lhe haviam dito que ellas tinham em Monteiros um tio rico de quem seriam herdeiras.

Averiguára pelo juiz que lá estava, um seu parente, e viera a saber que o homem era realmente rico; pagava uns noventa mil réis de contribuição predial, tinha bastante dinheiro a juro, fóra um bom mealheiro que guardava em casa, como grande avaro que era. Não constava que tivesse testamento, nem o faria porque isso lhe repugnava. Os unicos herdeiros eram as sobrinhas.

A herança devia estar para breve. Elle contava setenta e quatro annos, já o anno passado tinha tido um antrax que o pozera ás portas da morte, e os medicos diziam que não podia ir longe; havia desordens no funccionamento dos rins, perigosas e incuraveis.

A duvida era uma unica: este homem tinha um filho natural d'uma creada, mas nunca o reconhecera, correndo-o com uma bengala uma vez que o pequenito, por conselho da mãe, lhe pedira a benção no meio da rua.

Pretendia que elle fosse filho d'um creado, com quem a rapariga tivera amores, mas, para maior segurança, quando o rapaz tinha quatorze annos, mandou-o para o Brazil. Sabia-se que elle vivia e que de lá soccorria a mãe, a quem o velho abandonára na miseria.