Sabemos que nas provincias ha muita gente que não quer acreditar, que um miseravel sapateiro, estuporado e tonto, fosse o editor da gazeta dos fidalgos velhos, do periodico da aristocracia de sangue azul! Pois, para que se desenganem,{20} aqui lhes vamos dar alguns apontamentos para uma byographia do sapateiro, primeiro editor do «Portugal.»
José Ferreira da Silva, filho de paes pobrissimos, e natural d'esta cidade, foi, ainda creança, para casa d'um sapateiro, onde começou por engraixar botins, remendar sapatos de gallegos e chinellos velhos, até que, por meio das suas habilidades e com a ajuda d'alguns patacos, que os freguezes do mestre lhe davam de molhadura, quando lhes hia levar as botas, pôde estabelecer-se e casar. Tendo já loja sua, fez-se carola por especulação, e tal era a habilidade e a ligeiresa de mãos de que a natureza o dotára, que, dentro de poucos annos, achava-se possuidor d'alguns contos de reis, arranjados ou empalmados nas confrarias e irmandades, em que se mettia, como piolho por costura. Por occasião da invasão franceza, uniu-se aos anarchistas, cujas proezas são bem sabidas n'esta cidade, e dentro em breve tempo montavam os seus haveres a trinta mil cruzados, chegando a ser capitão dos bandoleiros do chuço. Desde então, começou a trabalhar menos pelo officio, mettendo-se a onzeneiro, e dando dinheiro a juros, com enormissimas usuras; porém, o que n'este mister ganhára, levou-lh'o o diabo para as mãos de um negociante, que, pouco depois, se declarou em estado de fallencia. Estonteado com este revéz,{21} teve o primeiro attaque de estupôr, e começou desde então a andar quotidianamente pelas igrejas. Era tão enthusiasta pelas idéas liberaes, que, no tempo do cêrco, foi denunciar os moveis, pratas e mais objectos de valor pertencentes ao fallecido snr. José Antonio (empregado na policia do Porto), que era seu inquilino, e tinha acompanhado o exercito realista, achando-se, por isso, ausente. Tudo foi sequestrado, e foi tal a raiva do sapateiro, quando o Snr. D. Pedro deu a amnistia, mandando levantar os sequestros, que ficou mais estuporado do que estava. Era tal a sua avareza, que, tendo ainda uma boa fortuna, andava vestido como um mendigo, e seus filhos não morriam de fartos, como é notorio pela visinhança. Estando completamente estuporado e tonto, houve um delegado, que, por empenhos, ou pelo quer que fôsse, o acceitou para editor da infame gazeta, intitulada «Portugal», e com quanto não recebesse por isso dinheiro (por estar tonto de todo) recebia-o por elle um filho, que ainda hoje é caixeiro da tripeça-gazetal da rua das Hortas. Nos ultimos tempos da sua vida, tinha uma loja d'adeleiro na rua Formosa, onde continuava a emprestar dinheiro sobre ouro, prata e roupas, com enormissima usura, levando de juros, de cada cruzado novo, trinta e quarenta reis por mez, o que equivale a cento por cento ao anno!!!... Falleceu{22} d'uma queda no dia 29 d'Outubro de 1851, testando duas moradas de casas, a roupa e moveis da adella e algum dinheiro.
Deus se compadeça da sua alma.
Eis-aqui uns apontamentos para a byographia do miseravel sapateiro, escriptos conscienciosamente, sem odio ou affeição.
Agora, se querem desenganar-se da refinada hypocrisia e cynismo da infame gazeta dos farcistas, comparem estes apontamentos com os que se lêem no «Portugal» de 10 de Novembro de 1851:
«O snr. José Ferreira da Silva, natural d'esta cidade, e filho de paes pobres, mas honrados[[1]], acaba de descer á sepultura, no cemiterio da ordem 3.ª de S. Francisco, com todas as honras funebres e com mais de 80 annos d'edade. Era laborioso e de boas contas[[2]], e tão amante de seus paes, que os teve em sua companhia até que falleceram. Agenciára elle pelas suas economias o melhor de 25,000 crusados[[3]] que empregou muito bem em promover a educação{23} de sua familia, e em obras pias[[4]]. Era tão apaixonado das confrarias[[5]] que pertenceu a quasi todas as d'esta cidade, sendo provedor da de S. Chrispim[[6]] definidor da 3.ª de S. Francisco, mesario e protector de diversas outras. Serviu de juiz d'Artes[[7]], e foi capitão d'ordenanças por occasião da invasão francesa[[8]]. Era muito estimado e acolhido das principaes familias d'esta cidade[[9]]. A sua nimia boa fé o fez ser victima d'uma quebra em que se fundiu a maior parte da sua fortuna que tinha em mãos do quebrado[[10]]. O seu animo religioso não se abateu com a adversidade, e hauriu perennes consolações no bom desempenho dos seus deveres domesticos e no exercicio dos actos religiosos, ouvindo missa quotidianamente, visitando o SS.mo Sacramento, e assistindo ás numerosas funcções religiosas que se celebram n'esta cidade. Era portuguez de velha tempera, e tão decidido legitimista[[11]], que se offereceu para editor gratuito do Portugal[[12]], e o foi com a melhor vontade até que Deus o chamou a si[[13]]. Não o arredou{24} nunca do seu honroso posto a bateria d'insultos com que o mimosearam os nossos adversarios[[14]] que estranhavam que um honrado popular fosse editor d'um periodico legitimista, como se a legitimidade excluisse classes. No entanto á borda da sepultura todos os collegas adversarios se portaram cavalheirosamente com o nosso editor. Houve apenas uma excepção no Pobres. Nós lhe perdoamos o seu cynismo em nome do fallecido. Pelo que nos toca depositamos aqui um penhor eterno de gratidão e respeito ao veneravel[[15]] ancião que nos escudou perante a lei, e esperamos que na presença do Eterno advogará a nossa causa que é a da justiça e do direito[[16]]. O nosso bom amigo falleceu d'uma queda e testou com acerto[[17]], deixando uma viuva inconsolavel e uma filha e um filho herdeiros de sua honra e virtudes[[18]]. Deus o tenha á sua vista[[19]].
E que tal! Assim é que se engoda o povo, para lhe hir pilhando os pataquinhos! É assim que o Portugal-gazeta costuma dizer a verdade!
Que honrada gente! E não lhes coram as faces, quando apparecem em publico!{25}
Comparai estas amabilidades para com um miseravel sapateiro, estuporado e tonto, com o grosseiro procedimento do snr. Francisco Candido para com a «Neta e Sobrinha de Reis» procedimento que escandalisou muitos realistas sensatos, que não comem nem querem comer a custa da illusão dos povos.
D'um lado uma consciencia tão larga, que fez do sapateiro um homem honrado, piedoso, realista, &c. &c. Do outro uma consciencia tão estreita e mesquinha, que se despede da Assemblea, porque a quasi totalidade dos socios resolvêra obsequiar S. M. a Rainha!!!