Duas palavras ao snr. Antonio Pinto Cardoso da Gama, e peço tambem para ellas a mais séria attenção do publico.

O snr. Gama é delegado do procurador regio na 2.ª vara, e debaixo da sua alçada está a typographia do Portugal-gazeta. A mim não me importa que o snr. Gama deva obrigações a ninguem; o que desejo é vêl-o applicar a lei igualmente a amigos e adversarios.

Snr. Gama: No dia 29 d'Outubro de 1851 falleceu o sapateiro José Ferreira da Silva, que foi editor do Portugal-gazeta. Este infame papel continuou a publicar-se illegalmente, até ao dia 10 de Novembro, debaixo da responsabilidade do fallecido, e o snr. Gama não procedeu, senão depois que eu requeri procedimento! Por fim, o «Portugal» foi absolvido; mas o seu proprio defensor teve a franqueza de me confessar que a sentença estava mal fundamentada—porque a lei é muito clara e a infracção era muito visivel! Eu sei tudo o que se passou com esse decantado processo, e calo-me por ora, mas hei-de fallar, e fallar muito claro, quando fôr tempo para isso.... Agora, snr. Gama, vou mostrar-lhe quanto é nociva a impunidade, e quanto é prejudicial que se não observem as leis.

O snr. Gama já sabe (porque o escripto se vende publicamente, e devia ser-lhe remettido, na conformidade da lei), que na imprensa dos negociantes do Portugal-gazeta se imprimiu um folheto intitulado==Descripção da viagem de SS. MM. desde que sahiram{30} de Lisboa até á sua entrada n'esta cidade.==Este folheto não traz o nome da officina, como a lei manda, e a lei pune severamente esta infracção, e a lei, snr. Gama, diz que qualquer pessoa do povo poderá accusar os delegados, quando estes não cumprirem com o seu dever.—Fico á espera, snr. Gama, e pouco me importa que o infame Portugal-gazeta me chame denunciante. Deus me livre de que elle me chame homem honrado. As cousas tomam-se como da mão de quem veem. Uma injuria na bôcca do immundo papel dos farcistas é o maior elogio que se me póde fazer.—Ao seu dispôr, snr. Gama.


Já me vai faltando a paciencia, e creio que—para quem não for muito estupido, muito hypocrita, muito desavergonhado ou muito simplorio—já bastam os factos que deixo apontados para todos se desenganarem de que o Portugal-gazeta é uma tôrpe especulação mercantil; que o editor, redactores e collaboradores só tractam d'illudir o povo, para lhe irem comendo os patacos; e, em fim, que publicam o papel mais infame que tem prostituido a imprensa;

Porque o Portugal-gazeta

«................... pirata inico
Dos trabalhos alheios feito rico»

—insulta a Rainha, e ao mesmo tempo imprime uma incomiastica descripção da viagem ao Porto, com a mira nos pataqinnhos.

«................... pirata inico
Dos trabalhos alheios feito rico»

Porque se finge victima d'uma perseguição acintosa, e encontra um delegado mais macio do que velludo.

Porque calumnía por gôsto, para especular com a honra, com o credito e com o suor alheio.

Porque se diz realista, e foi chuchando as moedas do snr. Cachapuz, para o defender como auctoridade realista.{31}

Porque anda todos os dias a atirar á praça publica o nome do Tio da Rainha, só pelo gôsto de o vêr desacatado pelas turbas, para depois ganhar patacos com as suas defesas e comparações.

Porque, finalmente, os que no Portugal-gazeta se declaram hoje defensores do Snr. D. Miguel—são os mesmos que hontem o cobriam d'injurias, e lhe chamavam tyranno e usurpador.

Este desengano é para aquelles que ainda acreditavam na boa fé do Portugal-gazeta. Resta-me dar tambem um desengano aos gazeteiros farcistas.

Escusaes de andar com investigações, prohibindo os vossos empregados de fallarem commigo—porque eu sei tudo o que se passa entre vós, e fui avisado, em tempo competente, d'aquella proposta, que se fez em certa reunião......................, de se darem algumas moedas a quem..................... e folguei muito de que alguns cavalheiros se portassem como verdadeiros fidalgos portuguezes, embora illudidos, repellindo uma proposta tão miseravel.

Podeis continuar a perseguir-me, que com isso só conseguis augmentar a aversão que vos tenho.