Que temor, infeliz! de mim se apossa!(12) Caro Principe!.. Esposo!.. oh Deos, quem sabe Se a ver-te tornarão inda os meus olhos. Vai, ó Castro, abraçar-te aos caros filhos, E entrega-te nas mãos da Providencia.
(12) Sem poder despregar os olhos do caminho que tomou D. Pedro.
ACTO II.
Scena I.
D. Affonso, e D. Pedro.
Af. Basta, Principe, basta: prescindamos De justas arguições, de escusas futeis; Não quizeste ir, vim eu. Quero esquecer-me, Perdoar quero mesmo as tuas faltas, Huma vez que obediente hoje as repares. Concluão-se estas nupcias proveitosas, Que para teu prazer, e a bem do Estado, Prudente contratei. Verás com gosto, Quando Lisboa entrares a meu lado, Com quanto regozijo o Povo todo, Teu consorcio applaudindo, a festeja-lo Com pompa jámais vista se prepara. Que doçura não he para os Monarchas, Espalhar alegria entre os Vassallos! Vê-los mandar ao Ceo ardentes votos, Pela conservação da Regia Prole, Que lhe segura a paz, a dita, a gloria! Vêr que as suas acções o Povo approva, E contente abençôa o seu Reinado, Curvando-se de grado ao leve jugo, Que sómente os máos Reis fazem pezado! Mil graças dou aos Ceos, pois satisfeitos Julgo estarão de mim os Lusitanos. E nada mais desejo que deixar-lhes, Em meu filho, outro eu, que sempre os ame, E que por elles seja sempre amado. Começa desde já neste consorcio A firmar o seu bem. Sim, hoje mesmo Deves partir comigo para a Corte, A fim de o celebrar, logo que chegue A Infanta de Castella, digno objecto Que escolhi para Esposa de meu filho.
Ped. Ah! Que seja possivel, por meu damno, Que o melhor dos Monarchas do Universo, Igualmente não seja o Pai mais terno! Que hum Rei, que desvelado buscou sempre Fazer os seus Vassallos venturosos, Queira fazer seu filho desgraçado!... Contratares, Senhor, sem consultar-me Hum consorcio, ignorando se teu filho Pode, ou quer d'Hymenêo ás leis cingir-se! Se essa, que lhe destinas para Esposa, Pode ao seu coração ser agradavel! Acaso julgas tu desnecessaria A minha approvação para estas nupcias! Não será livre hum coração ao menos Na escolha d'huma Esposa, que amar deve... Ah! Não queiras, Senhor, com tal violencia...
Af. Immudece, insensato; não prosigas Indignas expressões que me envergonhão... Bem conheço a razão porque assim pensas. Que indignos sentimentos, que fraqueza, Para quem deve hum dia ser Monarcha! Como, quando do Imperio as redeas tomes, Quando na mão a espada formidavel Da severa Justiça sustentares, Das paixões punirás o torpe effeito, Sendo tu proprio das paixões escravo? Como jámais serás obedecido, Se tu mesmo ao teu Rei desobedeces? Com quanta repugnancia os Portuguezes, Murmurando, verão no Luso Solio, Que de tantos Heróes tem sido assento, Hum Rei dado ás paixões, afeminado, Incapaz de empunhar o Sceptro augusto!
Ped. Mas capaz de os reger, e defende-los. Se das grandes paixões sou susceptivel, A molleza detesto, bem o sabes: Quando cumpre, Senhor, em campo armado; Ensinado por ti, brandindo a espada Sei por acções mostrar que sou teu filho; Nem para ser bom Rei (Senhor, perdôa) Eu julgo necessario huma alma dura; Mas antes me persuado não devêra O que fosse insensivel reger Homens. Corações que á ternura se não rendem, Jámais sabem carpir alheios males; Nem doêr-se das lagrimas do afflicto.
Af. Apagada a razão, cégo deliras; Isentos de paixões os Reis ser devem; Manão dos seus os publicos costumes: Se exemplificão mal os seus Estados, Os vicios dos Vassallos são seus vicios; Devem sacrificar os seus desejos; Ser comsigo crueis a bem dos Povos, Que o Ceo lhes confiou; e os que se ensaião Para lhes dar as Leis, devem mostrar-se Capazes destes nobres sacrificios. Os consorcios dos Principes são obra Dos int'resses do Estado, elles decidem, Elles dispõe de nós. Deixem-se ao Vulgo Caprichosos melindres com que exige, Que aos laços d'Hymenêo Amor presida. As doçuras de Amor para os Monarchas São de pouca valia: a nossa gloria Não se firma em tão fracos alicerces.