Scena I.
Ignez só.
Miseranda!.. Que trance! Oh desventura!.. Oh sentença, cruel!.. Venceste, ó Fado. Apraziveis lugares, testemunhas Do mais ardente amor, ah, para sempre A malfadada Ignez de vós se aparta... Quanto fôra melhor, quanto mais doce Deixar a vida, que deixar o amante! Que!.. Eu... deixar o amante?.. Oh caro Esposo!.. Oh Ceos! podeis manda-lo, ou permitti-lo? Sereis tambem crueis como os humanos? Condemnareis os mesmos, que soprastes, Sentimentos d'Amor, da Natureza? Para hum castigo tal quaes são meus crimes?.. Se me queres punir, Deos de vingança, Os raios tens nas mãos, accende os raios, Meu terno coração reduze ao nada; Mas d'outro coração, a que o ligaste, Separa-lo jámais... Ah! nem tu mesmo, Nem tu, que podes tudo, tanto podes... Que proferes, blasfema! Aos Ceos te atreves?.. Oh virtude! Oh razão! Desamparais-me?.. Onde, Ignez, onde está tua constancia? Aos teus deveres torna, entra em ti mesma. Orgão do Ser Supremo, hum Rei te ordena, Que do Esposo te apartes; não resistas; He força obedecer; enfrêa n'alma, Suffoca as afflicções, cala os queixumes: Co'as desgraças os crimes não mistures: Mas deixa-lo!.. Ai de mim... Deixa-lo!.. Agora, Agora he que eu conheço as furias todas, Toda a força d'amor: elle triunfa Da razão, da virtude, e dos Ceos mesmo.
Scena II.
Ignez, e Elvira.
Elv. Senhora... (Ai triste!.. o pranto me suffoca!) Se he certo que impias ordens te condemnão A deixar Portugal, a triste Elvira, Que protestou viver, morrer comtigo, Sempre junto ao teu lado, a qualquer parte A que te arroje a sorte, ha de seguir-te: Confio que esta graça me concedas.
Ign. Ah! Não venhas juntar aos meus pezares O quadro da Amizade consternada: Para esmagar-me o coração sensivel Bem basta Amor, a Natureza basta. Não posso resistir a tantos males, Aos golpes da saudade que retalhão Da atribulada Ignez o peito afflicto. Mais pranto com teu pranto não me arranques, Que a hum terno coração inda mais custão As lagrimas que move, que as que verte. He mesmo o ser amado hum bem funesto, Que exacerba a desgraça aos desgraçados.
Elv. He possivel haver almas tão duras, Que hum tão sensivel coração flagellem!... Mas ah!.. Porque aos pezares succumbimos? D. Pedro he teu Esposo; elle ha de oppôr-se Defensor poderoso em teu soccorro; Ha de frustrar da tyrannia as ordens; Nelle pois confiemos: a excita-lo Bastarão tuas lagrimas...
Ign. ................... Que dizes! Que terrivel idéa me despertas! Em vez de confortar-me, vens, Elvira, Abater-me a constancia, aconselhar-me A que contra seu Pai revolte hum filho?.. Ah! Não... Embora Ignez infeliz seja; Mas nunca origem de rebeldes crimes: Amortecida já, mas inda accesa Brilha a luz da razão dentro em minha alma. Não consintas, oh Ceos, que amor a apague; Fortalecei meu peito. Sim, eu devo, Eu devo submetter-me ao meu destino: Cumprão-se as duras leis do duro fado: Amargurada irei longe do Esposo Acabar entre as garras da saudade... Porém os caros filhos... Ah! comigo, Comigo os levarei. Doces penhores Do mais constante amor, sereis ao menos Na minha adversidade terno allivio... Entre os meus braços sempre, sempre unidos Da inconsolavel Mãi ao peito anciado, Cobertos de caricias, de suspiros, Banhados com meu pranto, em seus semblantes O semblante verei do Esposo ausente. Aprenderão de mim... Mas ah! Que digo!.. Quereria eu acaso, associando Ao pavoroso horror do meu destino O destino dos filhos innocentes, Tolher sua ventura?.. Não; entregues De seu Pai aos desvelos, abrigados Á sua sombra fiquem; lembrem-lhe elles A miserrima Ignez continuamente... O retrato da Mãi nos filhos veja, Que eu memorias do Esposo não careço; No coração gravada a sua imagem, Ante os meus olhos sempre ha de seguir-me, Ha de, em quanto viver, viver comigo, E comigo baixar á sepultura.