Sanc. .......................... Senhor, que fazes? Ousas contra teu Pai?

Ped. ............... Ah! Que proferes? Pai? Eu tenho inda Pai?..(22) Nao, não, tyranno, Tu meu Pai já não és: não sou teu filho... Hum cruel como tu... Porém que digo!.. Com quem fallo?.. Onde estou?.. Quem me arrebata! O inferno, as furias todas me espedação... Quem falla não sou eu, trovejão ellas... Sacrilego!.. que fiz!..

(22) A D. Affonso, no mesmo frenetico arrebatamento.

Af. .................. Ceos, estais surdos!.. Onde os raios estão, que inda não chovem Sobre hum monstro, que tanto os desafia? Vingança!.. Maldições!..

Ped. .................. Tudo mereço. Ah! Se os Ceos inda immoveis não fulminão, He talvez que, assombrados de escutar-me, A desprender os raios não se atrevem. Debaixo de meus pés tremendo a terra, Quer abrir-se, e não ousa devorar-me... Até mesmo os abysmos se horrorisão De hum monstro, que soltou tantas blasfemias... Oh terror!.. Oh remorsos!.. Crime horrendo!.. Mas sabe o Ceo, Senhor, que, involuntarias, Não teve o coração parte nas vozes, Que por meus labios despejou o Inferno... O Inferno todo, que no peito encerro. Não me julgues capaz... Porém que digo!.. Infeliz!.. Desculpar-me intento ainda?.. Horror da Natureza, e de mim proprio, Nem me atrevo, Senhor, a supplicar-te O perdão... Não, eu delle não sou digno. Do pezo da existencia me allivia; Vinga da Natureza as leis sagradas, O respeito devido á Magestade, Que atropellei feroz: eterno exemplo Tu deves dar em mim ao Mundo inteiro. Salpicadas de sangue estas paredes, Que ouvírão minha voz blasfemadora, Aos seculos vindouros apregoem Meu lastimoso fim: ao vê-las tremão As Gerações futuras de imitar-me.(23) Eis-me a teus pés prostrado: vibra o ferro; Eis meu peito, retalha-o: não te lembres Que foste já meu Pai... sou delinquente: Lembra-te só que és Rei, castiga o crime. Porém... ah! não flagelles a virtude... Se me deves punir como culpado, Ignez como innocente absolver deves. Não me custa morrer; porém não posso, Não posso consentir que Ignez padeça... Nem ha de padecer em quanto eu viva. Pertender separar-nos he debalde; Té duvido que a morte possa tanto...(24) Releva ao meu amor estes transportes...(25) Eu sou sensivel... amo... e sou amado.

(23) Prostra-se aos pés de Affonso.
(24) Tornando em si.
(25) No tom mais pathetico.

Af. Todos os meus sentidos perturbados, Cheio de ira, e de horror... nem fallar posso... Affastem-me da vista esse rebelde. Ao proximo Castello conduzido, Seja em prizão segura afferrolhado: Sua guarda, D. Sancho, eu te confio; Em quanto justiçoso, inexoravel, Em Conselho d'Estado não decido Qual ser deva o castigo de seus crimes, E o supplicio da infame, que os motiva. Treme do meu furor, malvado, treme: Este dia talvez, dia horroroso! Será na longa serie das idades, De eterno espanto a Portugal, e ao Mundo.

Scena VI.

D. Pedro, e D. Sancho.

Ped. Inda mais horroroso do que pensas Certamente será, se não desistes De tão crueis designios. Que impiedade! O supplicio d'Ignez! Da minha Esposa!.. Como posso deixar de rebellar-me! Como evitar hum crime necessario, Que o dever, e a ternura me prescrevem?.. Hum crime disse?.. Ah, não; longe os remorsos; Defender huma Esposa não he crime; Crime fôra deixa-la ao desamparo. Longe, maximas vãs, leis oppressivas, Que a tyrrania impoz sobre a ignorancia, Nada se deve aos Pais pela existencia: Os desvelos depois, seus beneficios São os titulos só que lhes conferem Á nossa obediencia hum jus sagrado. Meu coração revoca os seus direitos: Arrependo-me só de arrepender-me Pelos ter justamente sustentado. Querias, Rei cruel, afferrolhar-me Em segura prisão, para a teu salvo Me poderes roubar a cara Esposa?.. Debalde o projectaste, não...