Coel. Releva-me, Senhor, que ouse, pungido Da dor, em que o meu Rei vejo abysmado, Recordar-te que deves mitiga-la. Tua vida, Senhor, não he só tua. Do teu Povo he tambem: ah não, não queiras Á força de afflicções abbreviar-lha. Sei quanto custa a hum Rei ouvir blasfemias De hum filho, que feroz o não respeita: Mas deves ponderar que hum tal arrojo Tão desculpavel he, quanto he violenta A funesta paixão, de que instigado Teu filho, a teu pezar, o perpetrára; Delicto involuntario...
Af. .................. O seu delicto Não he só filho da paixão que o céga: Força maior o arrasta aos sacrilegios: Mais que o seu ímpio arrojo, o que me afflige, He ver que assaz mereço hum tal castigo, Das maldições celestes justo effeito. Oh remorsos crueis!.. Era forçoso Que hum filho de tal Pai fosse rebelde. Mais do que elle rebelde, filho ingrato Eu fui, eu fui tambem... Ardendo em furia Atrevi-me, que horror! a tomar armas Contra Diniz meu Pai; movi-lhe a guerra, Sublevei-lhe os Vassallos, assolei-os; Cavei-lhe assim feroz a sepultura; Todas as leis calquei da Natureza, A Natureza agora quer vingar-se. De hum Pai, que contra o Pai se revoltára, És, sim, filho rebelde, és digno filho! Mais me soffreo Diniz do que eu te soffro; Mas tu has de igualar meus attentados, Inda os has de exceder; talvez já tardas! Nem vós podeis, ó Ceos, jámais impunes Sacrilegios deixar tão execrandos. Dos Avós implacaveis vingadores São, por justo castigo, quasi sempre Máos filhos os do Pai, que foi máo filho. Diniz! Grande Diniz! Sombra iracunda! Terrivel sombra, que ante mim voltêas! Sobre a minha cabeça criminosa, Por mão do ousado neto, descarrega O já tardio, merecido golpe... Ah! Sim... bem vejo... ameaçador me apontas O tremendo futuro, que m'espera... Que flagello! Que horror! Que mar de sangue!.. Tristes vassallos meus! Ah filho! Filho! Suspende...
Coel. .... Que delirio te arrebata?.. Teu grande coração sentir não deve Remorsos, que aos malvados só competem: Passadas, leves faltas não recordes; Males não temas, que atalhar bem podes.
Af. Porque não vens, ó morte, alliviar-me Do pezo da existencia, e de meus crimes!
Coel. Que seria de nós, se os Ceos te ouvissem! Em desordens submerso, dessolado, Comtigo Portugal acabaria. Os clamores escuta do teu Povo, Conserva-lhe o seu Rei; tão necessario A teus tristes Vassallos jámais foste: De mil calamidades ameaçados, Só lhes póde valer tua justiça.
Af. E como? De que modo evitar posso Desordens, que a mim mesmo me soçobrão?
Coel. Do mal a causa extincta, o mal expira; Extingue a causa pois de tantos males: Em quanto existir Castro, que os fomenta, Debalde intentarás dar-lhe o remedio.
Af. Que dizes? Condemnar Ignez á morte? Tão graves são seus crimes, que mereção...
Coel. Os seus crimes, Senhor... Ah! por desgraça, Nunca o Mundo vio crimes que brotassem Tão funestas, horriveis consequencias: Desnecessario julgo referi-las; Tu bem as sabes, pois assaz te affligem. Do Principe ardilosa seductora, Se teu filho he rebelde, se he blasfemo, Quem, senão ella, o fórça aos sacrilegios! Não vacilles, Senhor; o seu supplicio Chega a ser, mais que justo, indispensavel. Mas não basta o que eu digo a condemna-la: Tens melhores, mais sabios Conselheiros, Que juntar já mandaste; ouve os seus votos: Que se elles zelo igual ao que me inflamma, Por ti, pelo bem público, tiverem, Hão de todos unanimes rogar-te Que o supplicio de Ignez logo decretes; Pintar-te co'as mais negras, proprias côres De Portugal a ruina, se o dilatas; As dissensões crueis, a horrivel guerra, Que a vingativa Hespanha vai mover-nos, E de que os teus Vassallos, fatigados Das recentes batalhas, já murmurão, A Viuva, que o Esposo perdeo nellas, Não quer perder agora o caro filho, Nem o filho, que em lucto inda o Pai chora, Desamparando a Mãi, expôr-se á morte. Finalmente, Senhor, tudo te brada Que sacrifiques huma a tantas vidas; Que deixes ao futuro eterno exemplo, Para que ninguem mais seduzir ouse, Á imitação de Ignez, corações Regios.
Af. Se assim o exige o público socego, O Conselho decida o que for justo, Que eu afflicto não sei o que obrar deva.