(39) Enternecido.
(40) Vai abraçar os netos, volta o rosto afflicto e exclama.
(41) Levanta Ignez.

Ign. Ah Senhor! Perdoar aos desgraçados He dos Reis o poder mais doce, e augusto: Sim, do teu coração segue os impulsos; Triunfe a compaixão, e a natureza, Não te has de arrepender por ser piedoso; Antes porém, se á morte me condemnas, Hão de eternos remorsos flagellar-te, Incessantes angustias consumir-te: De Portugal a gloria, as esperanças Vão sobre a minha campa espedaçar-se. Verás por ti mandado á sepultura Comigo, a teu pezar, descer teu filho. Matando-me, Senhor, ah, vê que o matas! Os nossos corações, unidos ambos, Tão ligados estão, que o mesmo golpe Que retalhar o meu, tràspassa o delle; Existir hum sem outro não podemos... Por elle, e não por mim t'imploro a vida. Sim,(42) de rojo outra vez torno a abraçar-me Com tuas Regias Plantas. Tem piedade Da Esposa de teu filho. Ah, se não fossem Estas doces prizões, que me constrangem A viver infeliz, e amar a vida, Longe de instar por ella, sem queixar-me, Tranquilla recebêra o fatal golpe... Mas deixar para sempre o que mais amo!.. Sou Esposa, sou Mãi... Ceos! Desfalleço!(43) Queridos filhos... Desgraçados orphãos!.. E que será de vós quando vos falte. A mais terna das Mãis, o Pai mais terno!.. Ah Senhor! Se inflexivel ao meu pranto, A minha situação te não commove, Presta ouvidos á voz da Natureza: Mova-te a compaixão o desamparo Destas victimas tenras, e innocentes: Elles culpa não tem dos meus delictos. Não te lembres, Senhor, que são meus filhos; Ah, não: lembra-te só, que são teus netos... Mas tu choras? Que vejo! Os Ceos me ouvírão: Tuas lagrimas vem em meu soccorro, Ellas o meu perdão já me annuncião. Acaba de extinguir os meus temores, Dize, dize, Senhor, que me perdoas.

(42) Prostra-se outra vez aos pés de Affonso.
(43) Abraça os filhos com a maior ternura, e afflicção.

Af. Não posso resistir... Oh quem podéra Neste instante deixar de ser Monarcha!

Scena IV.

D. Affonso, Ignez, seus filhos, e Coelho.(44)

(44) Ignez, apenas avista Coelho, levanta-se atemorisada.

Coel. Por ti, Senhor, se espera: vem, não tardes; Que já começa o Povo a amotinar-se.

Ign. Oh Deos! Eu morro!

Af. .................. Ignez, não desesperes. Inflexivel não sou: meu pranto o affirma; Mas não posso faltar aos meus deveres; Não sou senhor de mim, tenho Vassallos; Perante elles, perante os Ceos, e a Terra, De tudo quanto obrar sou responsavel; Despotico não sou; mas sou piedoso. Tens Affonso por ti, nelle confia: Ao Conselho d'Estado vou eu mesmo Tua Causa advogar. Ceos, inspirai-me.