A lembrança de que muitas pessoas desejão vêr no fim daquella optima Tragedia huma Coroação, fez com que se imprimisse esta, apezar da falta de unidade que ha, o que forma hum erro Dramatico, que o seu Auctor não desculparia se existisse.--Nota do Editor.
Mutação.
Magnifica Sala com Docel, e Cadeira de espaldar no meio do Theatro, em a qual está D. Ignez assentada, e em lugar competente, e magnifico huma Coroa riquissima.
Sahem D. Pedro, D. Sancho, D. Nuno, Elvira, os dous Meninos, Grandes, e Guardas Reaes.
D. Nun. Esta he a pompa, Senhor, que a brevidade Me permittio do tempo.
D. Ped. ............. Que impiedade! He possivel, Ignez, oh dura sorte!.. Quem vida me dêo te désse a morte?! A sacrilega mão, barbara, e fera, Que o teu sangue verteo no duro effeito Não cahio com o ferro? Oh quem podéra Soldar a pura neve de teu peito!.. Quem podéra animar-te a luz perdida, Repartindo comtigo a minha vida?! Quaes serão os castigos acertados Que excogite a lembrança desta scena Contra estes deshumanos inimigos, Sem lei, sem compaixão, e sem respeito? Farei abrir com golpes mui profundos, As espadoas a hum, a outro o peito; E a seus mesmos olhos moribundos, Que vírão este Sangue, desejára Mostrar os corações, que os animára A tão cruel, e aspera fereza, Como abortos crueis da natureza Para monstros indomitos gerados: Choro, meu bem, a tua adversidade, E vivo para minha saudade!..
D. Sanc. Aqui te outorgo a Corôa...
D. Ped. ....................... De outra sorte Coroar-te intentei, fiel Consorte; Mas preferio á gloria a tyrannia!.. E vós, meus caros, meus fieis Vassallos, Reverentes beijai esta mão fria, Que beijar deverieis n'outro estado, Se tão impio não fosse o nosso fado.
D. Sanc. O primeiro sou eu, que esta mão bella Reconheço da minha Soberana, Com o respeito que devo a vós, e a ella. Beija-lha.