3 Acabou finalmente Octaviano Augusto de vencer na celebrada guerra Cantabrica aquelles Póvos, e mudando-lhes o governo, e limites, dividio a Hespanha em tres Provincias, a saber: Lusitanica, Betica, e Tarraconense. A Lusitanica incluia a mayor parte do que hoje chamamos Portugal, com outras muitas terras, que hoje pertencem ao Reino de Leaõ, e Provincia da Estremadura Castelhana. O rio Douro a separava pelo lado septentrional da Tarraconense; pelo oriental huma linha, que sahia do Douro quasi naquella parte, donde se incorpora com o rio Pisuerga, a qual linha descia a buscar o Guadiana, e este depois dividia a Lusitania da Betica até entrar no Oceano, cuja costa cercava o restante da Lusitania.

4 Nesta divisaõ de Augusto se confundiraõ os limites da primitiva Lusitania; porque elles começavaõ na foz do rio Tejo, e desde alli corria até o cabo de Finis terræ, e aquelle espaço depois situado entre os rios Tejo, e Guadiana, a que hoje chamamos Alentejo, e Algarve, naõ se chamava Lusitania, mas sim Celtica. Da mesma fórma padeceraõ alteraçaõ os confins da Betica, e Tarraconense, e daqui nasce a confusaõ entre os Authores como bem advertio o estudiosissimo Padre Argote.[149]

5 Corria o anno de Christo 118, quando o Imperador Elio Adriano, visitando as terras do seu Imperio, dividio a Hespanha em seis Provincias: Tarraconense, Cartaginense, Betica, Lusitania, Galiza, e Tingitania; e nesta divisaõ a Provincia do Minho ficava fóra da Lusitania, e se incluia na de Galiza, como bem mostra Floriaõ do Campo com particularidade, e certeza.[150] Constantino Magno fez outra divisaõ em sete Provincias, mas sem alterar as demarcações anteriores. Outras divisões querem alguns que fizessem os Romanos, mas saõ dubias.

6 O que temos por certo he, que os Romanos além destas repartições tinhaõ dividida cada huma das Provincias em Chancellarias, a que chamavaõ Conventos Juridicos, collocados nas Cidades mais insignes da Provincia, às quaes acudiaõ os póvos da Comarca para administraçaõ da justiça. Destes Conventos Juridicos, a que correspondem hoje as nossas Relações, havia quatorze em toda Hespanha: as que tocaraõ às nossas terras, foraõ tres: Braga, Béja, e Santarem.

7 Havia tambem algumas Cidades privilegiadas com o titulo de Municipios. Colonias eraõ aquellas, que tinhaõ sido fundadas por familias Romanas, e taes foraõ em nosso terreno Béja, e Santarem, além de outras tres, que hoje nos naõ pertencem, e gozavaõ seus Cidadãos do privilegio de Cidadãos Romanos. Municipios eraõ os que se governavaõ por Leys proprias, e estes foraõ Lisboa, Evora, Mertola, e Alcacer do Sal.

8 Extincto o dominio Romano, invadiraõ os Barbaros as Hespanhas o anno de 409 depois de Christo, e daqui por diante se alteraraõ notavelmente os limites das nossas Provincias em todas as subsequentes sujeições até o reinado delRey D. Fernando o Magno, o qual falleceo no anno de 1067, deixando repartido entre seus filhos as terras dos seus dominios; e cabendo as de Portugal a ElRey D. Garcia, desde entaõ se principiou a chamar Portugal o que era Lusitania. Declaradas pois as divisões antigas, passemos a expressar as modernas.

NOTAS DE RODAPÉ:

[148] Tit. Liv. lib. 36. cap. 28. Mela lib. 2. cap. 6. Solin. cap. 23. Strab. lib. 3. pag. 166.

[149] P. Argot. Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 38. e nas Mem. do Arceb. de Brag. pag. 40. e 41.

[150] Isaac Vossio nas Notas a Pompon. Mela liv. 2. cap. 6. Flor. do Camp. liv. 1 cap. 3. Moral. liv. 7. cap. 2. Osorius ao Prolog. de reb Emman. Resend. Antiq. lib. 3. Estaç. Antig. de Portug. cap. 19. e 20. Plin. lib. 4. cap. 20. Volaterran. Geograph. lib. 1. Barreir. Corograf. pag. 90. Joaõ Salgad. Success. Milit. p. 168. vers.