CAPITULO V.
Divisaõ moderna pelas Provincias.
1 Presentemente se divide Portugal em seis Provincias, ou Regiões: duas ficaõ na parte septentrional, e se chamaõ Entre Douro e Minho, e Tras os Montes: duas no coraçaõ do Reino, chamadas Beira, e Estremadura: e outras duas na parte Meridional, a que chamaõ Alentejo, e Algarve, que tambem logra o titulo de Reino. Cada Provincia destas se subdivide em Comarcas, ou Ouvidorias, para boa administraçaõ da justiça; e cada Comarca tem debaixo da sua jurisdiçaõ certo numero de Villas, e Lugares, em que existem seus Juizes, que governaõ subordinados aos Corregedores das Comarcas. Supposta esta prejacente noticia, entremos a descrever a primeira Regiaõ da parte do Norte, chamada
Provincia do Minho.
2 Como esta Provincia está encerrada entre as famosas correntes dos dous rios Douro, e Minho no Occidente septentrional de Hespanha, da tal situaçaõ tomou nome de Entre Douro, e Minho, que em Latim se diz Interamnensis, ou Duriminea. Quasi todos os Geografos[151] lhe daõ de comprido de Norte a Sul dezoito leguas, e de Nascente a Poente doze de largo na sua mayor largura, porque em algumas partes naõ tem mais que oito.
3 Confina esta Provincia da banda do Meyo dia com o rio Douro, que a separa da Beira: da banda do Occidente parte com o mar Oceano, começando em S. Joaõ da Foz, e acabando na Villa de Caminha, onde o rio Minho divide Portugal de Galiza. Dahi para cima, que he a parte do Norte, vay pelo dito rio até o termo da Villa de Monçaõ, e alli passa o termo de Galiza o rio Minho, e se reparte por marcos até o Castello de Castro-Laboreiro, que saõ doze leguas desde a Villa de Caminha. Dalli atravessa o resto pelo monte do Gerez, que está da parte do Nascente, e vay pela terra de Barrozo até à ponte de Cavez, que está no rio Tamega, e dahi pelo rio abaixo até à Villa de Amarante; e deixando o rio, vay pelo monte do Bayaõ dar no Douro, donde começámos.
4 O clima he o mais temperado, porque está entre o parallelo de 41 e 42 gráos de altura do Polo Arctico. Daqui nasce, que sendo taõ pequena esta Regiaõ, he summamente fertil; e a benignidade dos seus ares, a affluencia dos seus rios, as abundancias, e delicias dos seus campos comprovaõ a fama do seu admiravel temperamento; donde se animou a dizer Manoel de Faria,[152] que se no mundo houve Campos Elysios, existiraõ nesta Provincia; e se os naõ houve, merecia que sómente os houvesse nella, se he que este titulo se deve dar a sitio ameno, e delicioso.
5 Assim o vemos, porque a mayor parte desta Provincia está sempre cheya de arvoredos de todo o genero, que organizaõ hum continuado bosque perpetuo, e muy aprazivel, composto de loureiros, azinheiros, platanos, buxos, murtas, teixos, pinheiros, e ciprestes, que todos nem de Inverno perdem a folha, além de castanheiros, carvalhos, sovereiros, e outras arvores, donde se criaõ as mais robustas madeiras do mundo,[153] taõ ferteis, que ha castanheiro, que dá trinta, e quarenta alqueires de castanha, e ainda hum moyo, como affirma Joaõ Salgado de Araujo:[154] pé de vide em latada, ou em arvore, que dá pipa de vinho: pé de nogueira, que dá moyo de noz: larangeira, que dá cinco carros de laranja: pé de carvalho, que dá meyo moyo de bolota; e alguns taõ grandes, que naõ o abrangem quatro homens, como he na quinta de Mouro de S. Joaõ de Ataens da Villa de Pica de Regalados. Testifica o Doutor Joaõ de Barros na Descripçaõ, que fez desta Provincia, capitulo 7, que vira hum, em cujo oco cabiaõ cincoenta cabras, e outro, onde cabiaõ dez homens a cavallo, dando por testimunha ao Marquez de Villa-Real, que foy huma das pessoas, que entrara dentro, o que parece encarecimento, posto que o mesmo escreve Manoel de Faria.[155]
6 Esta abundancia he igual em tudo. De boys, e vacas sustenta quatrocentos mil, e mais de hum milhaõ de ovelhas, e carneiros, segundo dizem Duarte Nunes,[156] e outros. O Doutor Joaõ de Barros, sendo Ouvidor de Braga o anno de 1500 e tantos, diz, que por ordem delRey mandara fazer a conta do gado, que havia só no termo daquella Cidade, e achara treze mil cabeças de gado meudo, e de boys, e vacas onze mil. A mesma fecundidade corresponde a todo o genero de caça, carnes, e peixes, tudo de excellente sabor, principalmente havendo tantos rios povoados de gostosos salmões, lampreas, trutas, salmonetes, sáveis, bogas, e tainhas, com infinitos outros igualmente admiraveis. Criaõ-se tambem todo o genero de legumes, e hortaliça: tem muito mel, e lacticinios, muito milho, o paõ que basta, e até minas de ouro, prata, ferro, e estanho. Lavra-se o linho mais fino, de que se fabrîca o panno branco muy estimado na Europa. Só azeite ha pouco nesta Provincia, naõ porque a terra deixe de criar oliveiras, mas porque naõ as plantaõ; porque lisongeados os seus naturaes com o prestimo, e sabor do chamado unto, de que usaõ tanto nos guizados, como às vezes nas luzes, esqueceraõ-se de as cultivar.
7 Saõ seus habitadores de fecundissima propagaçaõ, e larga vida; e até nos tempos, que a natureza constitue estereis, saõ aqui fecundas as mulheres. Muitos exemplos, e casos ajuntou para confirmaçaõ desta raridade, e excellencia Gaspar Estaço,[157] e Antonio de Sousa de Macedo.[158] Basta dizer, que da gente innumeravel, que naõ póde sustentar este Paiz, se tem povoado o mundo, e com especialidade o Brasil, e as Minas, e que he mais a gente, que a terra, onde naõ ha parte alguma, em que se naõ ouça tanger algum sino, e cantar hum galo.[159] Parece toda a Provincia huma Cidade continuada.
8 Conduz muito para esta geral fertilidade a grande copia de boas aguas, que, como se esta Regiaõ fora toda perenne tanque, assim brota, e rega seus campos, e pomares por vinte e cinco mil fontes,[160] e innumeraveis rios grandes, e pequenos; sendo os de mayor nome os seguintes: Ave, Basto, Benade, Biturim, Cabraõ, Caldas, Campanhaõ, Cávado, Celho, Celinho, Coa, Cosme, Coura, Deiriz, este, Dolo, Douro, Enfesta, Ensalde, Fato, Ferreira, Fulias, Gadanha, Gifães, Gogim, Herdeiro, Homem, Landim, Lavoreiro, Leça, Lima, Locia, Maçarelos Mejavelhas, Melres, Minho, Moles, Mouro, Neiva, Olo, Ovelha, Ouvir, Pontido, Prado, Ramada, Rellas, Siguelos, Sousa, Tamega, Taveira, Teixeira, Torto, Trovella, Tua, Valengo, Vargeas, Veadões, Vez, Vizella, Zezere pequeno, e outros, que se diffundem nos capitaes.