175 Mondego. Tem sua origem na serra da Estrella; e discorrendo pela Cidade de Coimbra, lhe communicaõ suas aguas fecundidade, e recreyo nos campos, e nos bosques; e depois de banhar todo o terreno, e passar pela famosa, e formosa ponte, vay concluir seu curso, e formar o porto de Buarcos. Da serenidade do seu progresso se lembrou Camões, quando cantou:[241]
Vaõ as serenas aguas
Do Mondego descendo,
E mansamente até o mar naõ paraõ.
Falla o Poeta de quando elle corre no tempo do Estio; porque no Inverno se precipita furioso, causando muitos estragos, e ruinas; donde Vasco Mousinho veyo a dizer:[242]
Mondego no Veraõ sereno, e brando,
Turvo no Inverno, bravo, e dissoluto.
Té lá onde na foz, que vay buscando,
Paga de suas aguas o tributo.[243]
176 Montijo. He rio da Villa de Aldea-Gallega. Nasce em hum bom porto, huma legua antes que se sepulte no mar: he muy espaçoso, e navegavel quasi com todo o vento: com baixamar espraya, mas nem por isso (se for preciso) deixaráõ a toda a hora de receber os seus canaes com segurança as embarcações, que vaõ de Lisboa.
177 Mós. He huma pequena ribeira, que corre perto da Villa de Mós. Caminha quatro leguas antes de se meter no Douro: hum quarto de legua afastado da Villa tem ponte de tres arcos.
178 Murtigaõ. Ribeira, que passa junto ao Convento da Tomina.
179 Nabaõ, antigamente chamado Nava de Juncoso.[244] Corre este venturoso rio pela Villa de Thomar; e damos-lhe o nome de venturoso, naõ só porque deu fama, e nome à insigne Cidade de Nabancia, que esteve aqui fundada, e foy regada com suas aguas, mas porque ellas tiveraõ a fagrada prerogativa de conduzirem até Santarem o bemaventurado corpo da gloriosa Santa Iria, que junto dellas martyrizou o cruel Banaõ por ordem de Britaldo, filho do Governador de Nabancia; donde Fr. Joaõ Felix disse:[245]
Præcipitat Naban, Irenes Virginis olim,
Qui sacra mærenti corpora vexit aqua.
Nasce elle na fonte do Agroal junto da foz da ribeira das Pias; e entrando com arrogancia pela Villa dentro de Thomar, e pela ponte da Granja, sahe por outra, que fica para o Sul, chamada das Ferrarias; e engrossado com outros riachos, se occulta no Zezere para entrarem ambos no Tejo junto à Villa de Punhete.