240 Soberbo. Deixou este rio de ser Tavora por ser Soberbo, depois que o ultimo Marquez daquelle titulo Francisco de Assiz padeceo no caes de Bellem a 13 de Janeiro de 1759 a injuriosa morte pela conjuração em que entrou contra o Fidelissimo D. Joseph I. E porque naõ corresse mais com o nome de Tavora, cujo appellido recebia, tanto que fazia alto na venda do Cepo, daquelle dia por diante se mandou chamar o rio Soberbo. Origina-se elle de huma fonte chamada de Joaõ Duraõ perto de Trancoso, e do Mosteiro de S. Francisco. Augmentado com outros pequenos rios alcança nome; e caminhando para o Norte até a ponte do Abbade, divide os dous Bispados de Viseu, e Lamego. Avista Sernancelhe, e o Mosteiro da Ribeira, que he de Freiras de Santa Clara, e com ponte de madeira se vay indo direito Nornordeste ao Villar, e por ponte de pedra se diffunde a Fonte Arcada; e voltando outra vez para o Norte, marcha por entre Paredes, e Castello de Cabriz até descer ao Mosteiro de S. Pedro das Aguias. Estende-se a Espinhosa, e vay buscar sua ponte de pedra, onde he chamado o Poço do fumo. Visita a Villa de Tavora, e o Lugar de Taboaço, e daqui caminha para o Douro.[252]
241 Sul. Rega a Villa de S. Pedro do Sul, a que deu nome, e consente vadearse com duas pontes de pedra, que mandou fazer o Infante D. Luiz, que foy Senhor do Concelho de Lafões.
242 Tamega. He dos principaes rios do Reino. Nasce em Galiza junto da serra do Larouco na fonte, a que chamaõ Tamega, de que herdou o nome. Atravessa grande parte do Minho de Norte a Sul, até que entra pela Villa de Chaves por huma excellente ponte feita pelos naturaes da Villa em tempo, que governava o Imperador Trajano, como consta do letreiro, que se lê esculpido em hum pilar della, o qual transcreve Grutero, e Argote,[253] e vem a ser:
IMP. CÆS. NERVÆ.
TRAIANO. AUG. GER.
DACICO. PONT. MAX.
TRIB. POT. CONS. V. P. P.
AQUIFLAVIENSES
PONTEM LAPIDEUM.
D. S. F. C.
Quer dizer: Imperatori Cæsari Nervæ Trajano Augusto Germanico Dacico Pontifici Maximo Tribunitiæ Potestatis Consuli quinto Patri Patriæ Aquiflavienses Pontem lapideum de suo fieri curarunt.
243 O Doutor Joaõ de Barros infere, que esta ponte devia ser feita antecedentemente de madeira, porque a inscripçaõ diz: Pontem lapideum; e como aquella estrada era muy frequentada dos Romanos para Braga, mandaraõ fabricalla de pedra. O certo he, que esta ponte tem já dezaseis seculos de duraçaõ, e he toda de cantaria muy forte com noventa e tres passos de comprido, vinte e seis de largo, e trinta e dois de alto.
244 Passa este rio pela Villa de Canavezes, e de Amarante, onde tem outra ponte feita, e ordenada pelo glorioso S. Gonçalo. Chegando em fim à Villa de Entre ambos os rios, se mete ao Douro, seis leguas pouco mais, ou menos acima do Porto; e duas leguas para baixo de Amarante ha outra ponte de cantaria nobre sobre o mesmo rio, à qual chamaõ de Canavezes, que mandou fazer a Rainha D. Mafalda, filha delRey D. Sancho I. Tem mais a ponte de Cavez muy alta com cinco arcos. Chama-se de Cavez, porque o Arquitecto que a fabricou, assim se chamava. Consta de hum monumento, onde jaz o seu corpo, que he no fim da ponte, em que se lem as letras da Era, em que se acabou de fazer, que foy pelos annos de Christo 1226. Ha mais a ponte de Mondim, que parece mais moderna do que as outras; e porque o rio he nesta parte fundo, se vay damnificando pouco a pouco.
245 No anno de 1109 aconteceo neste rio hum admiravel prodigio, que referem a Monarquia, e a Benedictina Lusitana,[254] e foy dividirem-se suas aguas pelo mez de Dezembro para darem passagem ao sagrado corpo do glorioso S. Giraldo, e a toda a mais gente, que o acompanhava, quando lhe foraõ dar sepultura na Cidade de Braga.
245 Taveiró. He ribeira, que banha as Villas da Bemposta da Beira, e de Castello-Novo, e entra no Ponsul.
247 Tedo. Nasce em Caria, onde chamaõ Granja do Tedo. Recebe o ribeiro de Leomil, avista a Villa de Nagoza, e vay ao Douro por baixo de Santo Adriaõ.