E, emquanto os gritos repetidos se iam perdendo ao longe, recahia no mesmo pensar constante, a fonte, sempre a fonte, e triste, sempre triste.
Mas afinal estava livre! N'aquella mesma tarde, á hora em que as chaminés começam fumegando e debaixo das parreiras,{6} emquanto a ceia aquece, se toca alegremente nas businas, estaria batendo á porta de casa, disfarçando a voz, fingindo ser um pobresinho a pedir esmola e agasalho.
E ria feliz com aquella idéa divertida.
A alegria da mãe! Era capaz de morrer de gosto a pobre velha, coitadinha!
Sabe Deus, quantas vezes, quando elle pelas madrugadas frias tremia enregelado na guarita, não molhava ella com lagrimas o travesseiro, a chorar a sua pobreza.
Recebera duas cartas d'ella muito ternas, cheias de noticias e de conselhos. Pedia a todos que lh'as lessem e por fim sabias-as de cór; trazia-as sempre comsigo entre a fardeta e a camisa, mettidas n'um saquinho de coiro, para se não estragarem.
E, ao lembrar-se de que afinal o tempo, de que tantas saudades tivera, ia novamente voltar, enchia-se-lhe a alma de alegria, e caminhava ligeiro, cantando em voz de falsete uma cantiga do S. João.{7}
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Ainda lhe faltavam tres leguas para chegar a casa.
Aquelles sitios já eram d'elle muito conhecidos. Lembrava-se perfeitamente de que, por detraz d'aquellas pedras, que lhe ficavam á esquerda, crescia basta a herva, regada pela agua de uma fontesita, onde, por mais de uma vez, de madrugada, quando ali andava guardando as cabras da viuva, viera armar aos passarinhos.