Ficou-me o latinorio no ouvido. Annos depois encontrei-o... Boa vontade não te faltava, querido mestre!
Á noite, depois da ceia, o tio Bernardo julgou dever discursar.
—Quando ás vezes me esqueço para ahi horas inteiras a fumar cachimbo, vocês põem-se a rir e dizem: «Lá está o tio Bernardo no Brazil!...» Pois bom é que saibas, antes que o aprendas á tua custa: nem tudo são rosas na vida. E no mar os espinhos são muitos. A gente volta, chega a casa, esquece tudo. Quantas vezes o diabo não{89} levou a cardada! O que passou, passou; olha a gente para traz e só vê aquillo de que tem saudades: por isso nunca falo de fomes, de privações, de perigos... Não te dê desgosto não ser homem do mar. Andar sobre as ondas é tentar a Deus.
Não sei que mais me disse ainda o tio Bernardo para me provar que, desde que eu voltava costas ao Oceano e marchava para Lisboa, era o ente mais feliz do mundo. Bem lhe dispensava o sermão. Já me via homem, voltando para a terra, de relogio e breloques, apertando na praia, depois do banho, as mãosinhas das senhoras, fumando o meu charuto, tratando o administrador por tu e o prior por você.
—Agora, rapaz, vai deitar-te e pede a bençam á tua mãe.
Então, não sei porquê, senti de repente um nó na garganta e eu, que tão pouco me lembrára d'ella, foi a soluçar que lhe cahi nos braços. Ella apertou-me contra o peito, muito, muito, até me fazer doer, e dando-me{90} um beijo muito longo, disse-me um adeus tão sumido, tão sumido que quasi o não ouvi.
No dia seguinte, ao romper da manhã, eu e o tio Bernardo, ambos na almofada da diligencia, partiamos caminho de Lisboa.
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Quando, depois de bacharel e de muito tempo gasto a escrever cartas e procurar empenhos, consegui finalmente ser admittido como amanuense nos proprios nacionaes, telegraphei a minha mãe, ou que na resposta me participou a chegada de meu pae.
Não se calcula a alegria com que parti.