—Morreu? perguntei ancioso.{92}

—Não, felizmente ainda não. Venho de lá agora. Mas está tão mal...

Não ouvi mais e desatei a correr. Estavam todos reunidos no quarto do tio. Quando entrei, abriu os olhos e disse:

—És tu! ainda bem que vieste. Deu-me o caruncho. Tinha pena de morrer sem tornar a vêr-te. Já sei que estás amanuense. Sou um homem rude, não sei o que isso é; mas deve ser... muito! Foste longe.

Esteve um momento calado, respirando a custo, e depois continuou:

—O teu irmão foi menos feliz. Nasceu forte, foi para o mar. O teu pae já está farto de andar por esses oceanos e deu-lhe o cahique.

Olhei para meu irmão. Estava herculeo. Uma barba negra, muito espessa, descia-lhe até meio do peito. Um pesado grilhão de oiro cahia-lhe do pescoço até ao ventre redondo. Meu tio fitou por um instante em mim os olhos já embaciados, e sorrindo:

—Olhem que mãosinhas! Não vivias no{93} mar dois dias. Tive rasão. Emfim, graças a Deus, fiz todos felizes.

Fechou os olhos e esteve assim por muito tempo, arquejando. Quando tornou a abril-os, procurou-me com a vista:

—Tenho pensado muito em ti... Como é o latinorio do mestre?