Não sabia o que elle queria dizer... Depois lembrou-me de repente.

Sic itur ad astra.

Ad astra, ad astra! repetiu machinalmente.

E, com os olhos vidrados fitando os florões do tecto, ficou-se a sorrir, como se Deus o houvera levado para um Brazil ideal.{94}

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[O VENTURA]

Quando começou de namoro com a Maria Eduarda, ainda não havia carreiras de vapor. Faziam apenas concorrencia aos catraeiros de Belem os omnibus immensos da Companhia, que de meia em meia hora passavam, chocalhando por aquella estrada fóra até ao Pelourinho, uns vinte passageiros, a seis vinténs por cabeça.

A vida de barqueiro não era então das{96} peores; e o José da Anastacia com o seu bom genio constante e o sorriso obsequiador, em que mostrava os dentes amarellados pelo tabaco, quasi da côr do rosto requeimado pelas soalheiras do Tejo, conquistára as sympathias de muitos, que preferiam o bote d'elle e a viva conversa do algarvio, á velocidade pacata dos churriões da Companhia.

Era vel-o quando, por exemplo, tinha de transportar até ao Terreiro do Paço a familia do Conselheiro, azafamado, logo desde manhã, lavando o bote, arranjando o toldo, remendando a bandeirinha portugueza, dadiva das meninas, e que fluctuava lá no alto, no angulo da véla, com mais donaire e, com o ser pequena, com mais orgulho que a bandeira branca de cruz vermelha d'uma náu da India.

O Conselheiro, muito amigo d'elle, nunca lhe chamava senão o Ventura. Tinha-lhe ficado a alcunha. E bem a merecia, quando sentado ao leme, com a mão junto aos sobrolhos{97} e os olhos piscos por causa do sol, todo cheio de si e do seu barco, sorria satisfeito, vendo a bandeirinha a fluctuar lá em cima, e a prôa do bote, um pouco tombado, riscar o espelho azul, em que as ondas só lá muito longe se encarneiravam, nas Bailadeiras, junto ao Pontal de Cacilhas.