E os véos azues das filhas do Conselheiro esvoaçavam alto, erguidos pelo vento.

Á volta, como não havia pressa, preferiam vir a remos. O José, para entreter, contava historias e fazia reflexões, que as meninas approvavam, meneando lentamente a cabeça, sentadas uma de cada lado do barco, fitando os olhos nas margens do Tejo que deslisavam lentamente. E elle, fincados os pés no banco deanteiro, de mangas arregaçadas, deixando ver os musculos possantes dos braços cabelludos, duros como seixos e palpitando com o esforço, sorria n'uma felicidade santa e levantava compassadamente os remos, d'onde cahiam enfiadas de{98} perolas, que os ultimos raios do sol cravejavam de pontos luminosos.

A Anastacia, uma velhinha, que morava n'uma agua furtada, quasi ao cimo da Calçada da Ajuda, benzia-se reconhecida cada vez que o José entrava em casa, atirando para cima da mesa os ganhos do dia; e, pegando na cabeça do filho com ambas as mãos, enterrando os dedos rugosos na basta grenha emmaranhada, beijava com ancia, mil vezes, sobre os cabellos seccos e duros, o amparo querido da sua viuvez.

Elle, um homemzarrão com vinte e tantos annos, adormecia, logo depois da ceia, com a cabeça reclinada no collo da mãe, cançado, mas feliz, contente n'aquelle ninho.

—José, vamos, acorda, dizia ella, dobrando o serão, quando na torre da Boa Hora batiam vagarosamente as dez.

O José levantava a cabeça e passava a mão pela nuca, cheio de somno.

—Que é isso homem? Põe-te em pé, pedaço de mandrião!{99}

Com os olhos meio cerrados, encandeado, dirigia-se então para o quarto, murmurando:

—Sua bençam, minha mãe.

E não pediam a Deus senão um futuro de dias assim.