Lembraram-lhe então certas historias. Aquella mulher a quem uma vez alugára o bote, porque a encontrára a chorar no Largo. Tinha deixado os filhos sósinhos em Caparica e estava ali com um vintem na algibeira; e elle alugára-lhe o bote pelo vintém, que acceitára, porque não queria envergonhal-a. E outra vez que elle se escondeu para o Conselheiro o não ver e alugar o bote ao tio Matheus, que havia dois dias não trabalhava e tinha a filha doente em casa, a tossir,{101} a tossir, e elle sem dinheiro para lhe comprar o caustico?
Havia tanta pobreza!
Elle nada lhe faltava e até na algibeira trazia quasi sempre uns cobres, para o que desse e viesse.
E como levava sede, entrou n'uma taberna e pediu dois decilitros.
O taberneiro tinha sahido. Foi a filha quem veiu servir.
O José ficou um pouco enleado a olhar para a rapariga, quando esta lhe trouxe o copo trasbordando, deixando cahir no pires de barro grosso, branco, riscado de azul, um pouco de vinho em que ella molhava a unha do pollegar.
Para o gosto d'elle nunca vira mulher assim!
Levou a mão ao barrete, e disse com a sua educação costumada:
—Muito obrigado.
E ficou-se a olhar para ella, um pouco apatetado, querendo falar e não lhe occorrendo{102} nada, sentindo como que um nó na garganta e um véo no entendimento, que o apouquentavam.