Era uma rapariga alta, magra, de cabellos castanhos muito finos, muito compridos, separados no alto por uma risca estreita, mostrando o casco branquissimo; a orelha pequenina; o nariz perfeito apesar d'uma pequena quebra; a bocca um quasi nada grande, com o beiço interior saliente, e uns olhos azues escuros, que entonteceram o José, quando n'elles demorou os seus.
Do outro lado do balcão, de mangas arregaçadas, um pouco enleada tambem pela ingenua admiração que percebia causar áquelle homem, lavava os copos n'um alguidar de zinco posto em cima d'um mocho, e collocava-os depois na prateleira de pinho pintada de azul, virando para o ar os fundos, onde, como aureolas, se alastravam grandes nodoas roxas rebeldes á limpeza.
A noite vinha-se approximando. A taberneira raspou um fosforo na prateleira e, desviando{103} a cara dos fumos do enxofre, accendeu o candieiro de petroleo.
—Muito boa noite, disse.
—Boa noite, respondeu o José, erguendo-se um pouco.
E nunca musica para elle valêra aquella voz.
O vento fóra soprava rijo e o ramo de loiro á porta raspava na parede.
O José levantou-se e abriu o saquinho d'algodão. Com voz sumida pediu por favor dois charutos cortados e pagou, levando a mão ao barrete, sem se atrever a mais palavra.
Por toda a estrada veiu pensando na rapariga. Trazia-a indelevelmente fixada na memoria, e até nas mais pequenas particularidades, uns signaesinhos espalhados pelo nariz e um outro sobre a palpebra um pouco mais accentuado.
E repetia mentalmente, muito enlevado, as unicas palavras que lhe ouvira:—«Muito boa noite. Muito boa noite.»{104}