E depois, com certo ar malicioso, já conformada:

—Ainda agora para ti começa a primavera!

*
* *

Pouco tempo durou.

Uma noite, o José sentou-se tristemente á prôa do bote e remou devagar para o largo. Chegado a meio do rio, deixou os remos e, traçando a perna, fincando a barba no punho cerrado, deixou ir o barco na corrente. Poz-se a olhar, sem as ver, para as mil luzes, que no quadro sobre as nodoas escuras dos navios brilhavam como lentejoulas{106} no panno negro dos caixões. Estava triste o José naquella noite.

E quando reparou, á pôpa do barco, na alcunha d'elle—Ventura—pintada em grossas letras brancas sobre uma variegada rosa dos ventos, sorriu amargamente e murmurou com ironia:—Ventura!

O bote arrastado pela vasante passou para além da Torre, e o José perdeu de vista os pontos luminosos do quadro. Apenas, ao longe, avistava um candeio baloiçando-se sobre a facha projectada, tremeluzente.

Que tristeza aquella!

O bote corria para a barra e começava saltando na crista das ondas. Fazia frio, e o Ventura encharcado, tremia.

De repente, o candeio desappareceu. Então o José ergueu-se, pegou novamente nos remos, virou o bote, começou a remar com força para o lado de Lisboa, arquejando, como a fugir d'um perigo. Mas de novo deixou cahir os braços, em grande prostração, e a cabeça inclinou-se-lhe sobre o peito. O{107} bote virou devagarinho e continuou em seu caminho fatal.