Entrou envergonhado, e com voz sumida perguntou ao caixeiro se aquillo se vendia.{115}

—Um tostão.

Elle que nunca olhára para mulher senão cá de muito baixo, coitado, assentando no meio da espinha as abas do chapéu, que (facto pouco vulgar) por detraz é que amolleciam, podia finalmente, por um tostão (barato!) contemplar uma mulher bonita á vontade, sentado commodamente, sem ser visto e sem ter de córar.

Quando sahiu da loja, levando na mão o rolinho de papel pardo, que embrulhava a lithographia, caminhou mais depressa, quasi alegre, menos asmatico.

Chegou a casa, desdobrou o retrato sobre a mesa, encostou n'ella os cotovellos, e, com as fontes apertadas nos punhos cerrados, passou parte da noite em contemplação da extranha formosura.

Parecia-lhe que afinal aquella mulher tinha que reflectir para elle uma parte de tanto amor, que todo lhe estava dando e que era o primeiro que sentia.

Desejos haveria tido, mas amar... Quem?{116} Se, quando passava, todos se riam e ninguem, ninguem, jámais sorrira para elle!

Quando recordava tempos longinquos, via, como atravez d'um nevoeiro, uma mulher a quem elle estendia os bracinhos magros, que se lhe debruçava sobre o pequenino berço—tão pequenino!—e que o envolvia n'uma atmosphera de amor, beijando-o muito. Mas essa mulher tambem não sorria... chorava.

Chorava naturalmente de vel-o tão fraquinho, tão feio, tão infesado. Se o visse agora, cheio de rugas precoces, com os cabellos alvejando-lhe nas fontes, e triste sempre, sempre tão triste!

Por isso contemplava aquelle retrato, como se fôra possivel aquella mulher loira, voltar a cabeça no papel e enviar-lhe, só para elle, aquelle sorriso que, por todas as esquinas, por toda a parte, ella enviava... para quem?—para coisa nenhuma; que o retrato era a tres quartos e ninguem sabia para onde olhava.{117}