Comecei a brincar com o gatilho.
—De que serve uma vida a que póde dar fim coisa tão pouca?
E, como para convencer-me de que não havia nada mais facil, approximei da bocca o cano do rewolver.
E vi que tinha medo e que me repugnava a morte.
Lembrei-me do frio da terra e do contacto da carne com os corpos frios e molles dos bichos nos cemiterios. E requintei na fantasia as sensações da longa fileira dos rigidos cadaveres, que via dormindo na valla commum o somno doloroso da morte.
Passou-me um calafrio pelo corpo, ergui-me,{133} levantei a golla do casaco e comecei a passear pelo quarto.
Os velhos retratos mettidos na sombra da bandeirola pareceram-me espectros.
Um sobre todos, lembra-me, causou-me horror extranho, n'aquella noite.
Era um conego velho, gordo, sem barba, com uma corôa de cabellos grisalhos em torno d'uma calva lisa e amarella. Tinha uns olhos azues, pequeninos, que se fitavam na gente para onde quer que se fugisse.
Quando eu era pequeno, tinha um dia virado o conego de cabeça para baixo, para ver se assim parava a perseguição do seu olhar. Meu avô, que n'aquelle momento entrara no quarto, ralhou muito commigo, que fôra uma falta de respeito, que o conego era meu tio, que fôra homem de muito saber e que até compuzéra uma grammatica latina com a prosodia em verso.