E eu sentia dentro em mim uma tempestade! E se me tivesse suicidado, se junto d'aquelle armario se houvesse passado um drama horrivel, elle teria placidamente, com a maior indifferença, continuado a morder voluptuosamente a madeira resequida, em sua obra de destruição.

Abri a garrafa. Bebi sofregamente.

Pela segunda vez approximei da bocca, voltando as costas ao conego, o cano do rewolver.

Senti abrir-se a janella do bexigoso e ouvi-lhe a voz esganiçada:

—Menina Maria! Parou a chuva.

Salvou-me a vida. Escutando-o, quiz despedir-me da voz humana. No curto momento, em que o meu antipathico visinho levou a dizer aquella phrase, entrou-me n'alma o receio.

—Decididamente sou um cobarde, um grande cobarde! Preciso beber.

E sahi, mettendo o rewolver na algibeira.{136}

*
* *

Pela segunda vez na vida o bexigoso falára sem dizer tolice. Effectivamente cessára a chuva, e apenas umas nuvens brancas, com grandes manchas d'uma côr mais carregada, formavam castellos fantasticos, entre os quaes corria a lua a toda a brida.