—Quer cautella? perguntou o Gomes com ar de brincadeira, já desmanchando o bordado com o bico d'uma tesoira.{150}

—Nada. Obrigado. O sr. Visconde não me falou em cautella.

E sahiu sempre a resmungar.

*
* *

Poucas horas depois, estava estirado ao pé d'uma sargeta.

Cahia uma chuva miuda e fria e elle sonhava.

Sonhava que tinha roubado um lenço de seda, d'uma seda muito fina, tão fina que nem o Gomes sabia ao principio o que lhe havia de dar pelo lenço. E tinha-lhe dado a loja toda, as botas, a guitarra, o oiro que estava na gaveta do balcão, o dinheiro que estava na commoda, tudo. E elle era rico. Andava de trem e bebia no Baltresqui uma coisa com bolhasinhas a subirem e que fazia saltar as rolhas das garrafas. Os janotas do Chiado tratavam-o por tu e os gaiatos davam-lhe dom. O Visconde era muito amigo d'elle e offerecia-lhe charutos magnificos,{151} que roubava a um estanqueiro muito velho da rua dos Canos. Tinha um sobretudo côr de canella, muito quente e andava de luvas. Morava n'um palacio e tinha na salla o retrato do velho que estava na loja do Gomes, e que era pae d'elle, e do outro lado estava o retrato do outro pae, do que tinha conhecido, do que lhe dava pancadas quando elle era pequeno. E o Gomes vinha pedir-lhe esmola. Estava muito magro. O lenço não era de seda, era de papel. E elle tinha um cão muito grande, com olhos de lume, que mordia no Gomes, e o Gomes chorava.

—Leva arriba!

Um policia de voz aspera accordou-o com um pontapé.

E, como o homem resmungava, metteu-lhe a mão por debaixo dos braços e obrigou-o a levantar-se.