Á VISTA D'UM RETRATO
Amo-te, flôr! Se te amo, Deus que o sabe
Que o diga a teus irmãos, que o céo povoam,
E ebrios de gloria canticos entoam
A quem no mar, na terra e céos não cabe.Se te amo, flôr! que o diga o mar—que expelle
Quanto é dominio, beija humilde a praia:
Se mal que a lua lá das ondas sáia
Nas rochas me não vê gemer com elle.Amo-te, flôr! se te amo, o sol que o diga!
Quanto lá da montanha aos céos se eleva,
Se entre os vermes do pó que o vento leva,
Me banha a mim tambem na luz amiga.Se te amo, flôr? Sem ti, que noite escura,
Meu céo, meu campo em flôr, meu dia e tudo!
Diga-te a noite minha se te illudo,
Se em vida já sem ti, sonhei ventura!O anjo que a berço humilde e escasso
Do céo me veio alumiar piedoso,
E em lagrimas e riso, pranto e gozo,
Desde então me acompanha passo a passo;És tu! Amo-te e muito! O que fluctua
Na fornalha que o sopro eterno accende,
Não beija a mão do anjo que o suspende
Com mais amor que eu beijo a sombra tua!
A LUA
Esse olhar silencioso
Em que lingua se traduz?
Falla-me, oh astro saudoso,
Luz do céo, pallida luz!
Que aereas visões me acordas,
Que imagem, lua, recordas
N'essa prateada côr?
Que ha em ti, que a dôr mitiga,
Que ha em ti, lampada amiga,
De meigo e consolador?Escuta, pallida lua,
Dá-me um sorriso dos teus,
Dá-me uma lagrima tua,
Se és a pupilla de Deus!
Vê que outros mimos não tenho,
Que em tua face desenho
A face do meu amor:
Uma só lagrima! fria,
Que ella me cáia... diria
Que uma lagrima cahia
Do céo ao menos na dôr!
JOVEN CAPTIVA
Respeita a foice a espiga verde ainda;
Sem medo da vindima, o estio inteiro,
Bebe o pampano as lagrimas da aurora:
E eu verde como a espiga, tenra e linda
Como o pampano, hei-de morrer? não quero:
Quero, mas não por ora!Talvez que a outrem, morte, grata fosses.
Espero! Embora em lagrimas me lave,
Varre-me o norte a mim a face? inclino-a.
Se ha dias tristes, ai! ha-os tão dôces...
Sem amargo, que mel, por mais suave
Que mar, em paz continua?Benefica illusão meu seio habita.
Sepulte-me este carcere inhumano;
A aza nivea da fé não se agrilhôa.
Escapa ao laço da prisão maldita,
Mais viva e alegre, a esse aereo oceano,
A alvéloa canta e vôa.Hei-de morrer? porque? se não diviso
Em minha alma um remorso; durma ou vele,
Se eu velo e durmo em paz, na paz do justo!
Se em cada rosto a luz me abre um sorriso;
Aqui mesmo, onde a mágoa o riso expelle;
E a luz assoma a custo!O fim do meu destino é lá tão longe!
Quantos passei dos alemos que adornam
Esta bella viagem? Assentada
Ao banquete da vida apenas hoje,
A taça ainda cheia as mãos entornam,
Dos labios illibada.Estou na primavera, oh segadores!
E as mais quadras do anno havia agora
De não acompanhar o sol? havia?
Debruçada em meu pé, gloria das flôres,
Eu não vi mais do que raiar a aurora;
Quero acabar meu dia.Espera um pouco, oh morte! nada perdes.
Antes consola os que o remorso, o medo,
O desalento pallido devora!
Guarda-me ainda o campo grutas verdes!
As musas, cantos! e o amor... Segredo!
Não morro, não, por ora!Assim, encarcerada, o rosto lindo
E a vista alçando a regiões ignotas,
Minha musa entoou na fé mais viva:
E eu, as languidas mágoas sacudindo,
Moldei em dôce verso as dôces notas
D'essa joven captiva!André-Chénier.
Mulher! quando nos braços
Te escuto uma canção,
Não vês em meus abraços
Profunda commoção?
É que o teu canto á mente
Me traz vida melhor...
Ah!
Cantai continuamente,
Cantai, oh meu amor!Quando sorris, assume
Teu rosto uma expressão,
Que o mais feroz ciume
Se desvanece então.
Sorriso tal desmente
Um coração traidor...
Ah!
Sorri continuamente,
Sorri, oh meu amor!Quando tranquilla e pura,
Te estou a vêr dormir,
Que vozes se afigura
Teu halito exprimir?
Contemplo então contente
Teu corpo encantador...
Ah!
Dormi continuamente,
Dormi, oh meu amor!Letra de V. Hugo. Musica de Gounod.