Lisboa.

UM BEIJO

Seria o beijo
Que te pedi,
Dize, a razão
(Outra não vejo)
Porque perdi
Tanta affeição?

Fiz mal, confesso;
Mas esse excesso,
Se o commetti,
Foi por paixão,
Sim, por amor
De quem?... de ti!
Tu pensas, flôr,
Que a mulher basta
Que seja casta,
Unicamente?
Não basta tal.
Cumpre ser boa,
Ser indulgente.
Fiz-te algum mal?
Pois bem: perdôa!

É tão suave
Ao coração
Mesmo o perdão
D'offensa grave!
Se o alcançasse,
Se o conseguisse,
Quizera então
Beijar-te a mão,
Beijar-te a face...
Beijar? que disse!
(Que indiscrição...)
Perdão! perdão!

Lisboa.

FRANCISCA DE RIMINI

Disse eu então: poeta, vês aquelles,
Abraçados, velozes como o vento?
Desejava poder fallar com elles.

—Chamando-os com enternecimento,
Em cá passando mais do nosso lado,
São dois amantes, lograrás o intento.

Assim que o vento os aproxima, brado:
Oh almas d'uma eterna anciedade,
Vinde fallar-me, se vos isso é dado.

Como um casal de pombas, com saudade
Do ninho, vem no ar, d'aza espalmada,
Não mais que por impulso da vontade;

Rompendo aquella aragem empéstada,
Acodem lá do bando onde anda Dido
Á supplica tocante e magoada.

«Ah mortal generoso e condoído,
Que nos visita n'este escuro horrendo,
Deixando nós de sangue o chão tingido!

«Do Senhor impetráramos podendo,
Já que tens dó do nosso mal enorme,
O teu descanço eterno em fallecendo.

«Queiras ouvir-nos ou fallar, conforme,
É só dizer ou perguntar, mais nada;
Em quanto o vento, como agora, dorme.

«A terra, onde nasci, fica assentada
Na praia onde a final o Pó descança,
E os que o seguem na marcha arrebatada.

«Amor, que em nenhum moço acha esquivança
Prendeu este a um corpo... que roubado
Foi á minha alma em barbara vingança!

«Amor, que obriga amar quem é amado,
Poz-me com elle tão condescendente,
Que ainda, como vês, me anda abraçado.

«Amor nos deu a morte juntamente.
Quem nos matou irá para as Caínas.»
Disseram elles isto fielmente.

Depois d'ouvir as victimas mofinas,
Scismando cabisbaixo, em tal postura,
Pergunta-me o poeta: em que imaginas?

Começo respondendo: oh desventura!
Quanta esperança! quanta sympathia
A ambos não cavou a sepultura!

E voltando-me a quem me referia:
Olha Francisca! dó dos teus tormentos
Estas lagrimas tristes desafia.

Mas na quadra dos vagos sentimentos,
Conta-me: como foi que conheceste
Os amorosos languidos momentos!

«O desgosto maior d'um triste é este,
Fallar do tempo que passou, confesso:
Que o diga o proprio guia que trouxeste

«Mas desejando tu com tanto excesso
Conhecer de raiz esta amizade,
Entre vozes e lagrimas começo:

«Liamos ambos, por curiosidade,
Certa historia d'amores, que idearam,
Nós sós, um dia, livres de maldade.

«Muita vez nossos olhos se espantaram,
E descoramos, lendo a historia estranha;
Mas dos lances que mais nos abalaram,

«Foi quando em summa o terno amante apanha
O dôce beijo, por que andava ardendo:
Este, que eternamente me acompanha,

«Beija-me a bocca a mim, todo tremendo!
A culpa foi do livro que se lia!
Não se continuou o dia lendo.»

Em quanto assim Francisca respondia,
Chorava Paulo, a ponto, d'aterrado
Me vêr nas convulsões da agonia,
E cahir, como um corpo inanimado!

Dante.

Lisboa.

PAIXÃO

Suppõe que d'uma praia, rocha ou monte,
Com essa vista embaciada e turva
Que dá aos olhos entranhavel dôr;
Tinhas podido vêr transpôr a curva,
Pouco a pouco, do liquido horisonte,
A saudosa barca, que levasse
Aquelle, a quem primeiro uniste a face
E o teu primeiro amor!

Depois, que toda mágoa e saudade,
Da mesma rocha ou alcantil deserto,
Olhando ávidamente para o mar;
Vias na solitaria immensidade,
Vagas ficções d'um pensamento incerto,
Surgir das ondas, desfazer-se em espuma;
Não alvejando, nunca, vela alguma
E, sempre, a suspirar.

Até que á luz d'uma intuição sublime
D'alma arrancavas o gemido extremo
De saudade, desespero e dôr!...
Pois é assim que eu soffro, assim que eu gemo!
Que nuvem negra o coração me opprime;
Nuvem de mágoa, nuvem de ciume,
Em te não vendo á hora do costume,
Meu anjo e meu amor!

Lisboa.