A SULAMENSE

—Sou trigueira mas formosa,
Moças de Jerusalem!
Senão vêde o pavilhão
Que arma em campo Salomão,
Se ha coisa mais preciosa,
E por fóra a côr que tem;
Vêde as barracas dos moiros,
Por dentro tantos thesoiros,
Por fóra negras tambem.

Não vos dê pois isso pena,
Ter assim a côr morena:
Minha mãi mandou-me pôr,
Por culpa de meus irmãos,
De guarda á vinha, o calor
Queimou-me o rosto e as mãos:
E eu, a vinha, é escusado
Dizer-vos que nem eu tinha
Senão agora o cuidado
De estar a guardar a vinha.

Ah! para que banda vás
Com o gado, meus amores!
E pela folga onde estás!
Bem vês os outros pastores,
E a gente não adivinha.
Eu não hei-de andar atraz
D'esses rebanhos sósinha.

SALOMÃO

—Ah rainha das mulheres!
Olha como tu te enganas,
Que medo tens das cabanas,
Que medo tens dos rebanhos,
Que medo tens dos estranhos?
Não te dê isso cuidado,
Anda por onde quizeres
Tambem guardando o teu gado.
Em te vendo, mesmo só,
Toda a gente se desvia,
Como da cavallaria
Dos carros de Pharaó.

CORO

—Dás no rosto certo ar
D'aquella graça da rola,
Que até encanta, arrebata.

A garganta pódes pôl-a
Ao pé do melhor collar.

2.º CORO

—Um te havemos de nós dar
De oiro, ás pintinhas de prata,
Que é lindo, e has-de gostar.

A SULAMENSE

Já não sei pelo que aguardo
Que estando el-rei a jantar
Lhe não entorno por cima
Esta redoma de nardo
Que é um balsamo de estima.

Mas ha outro mais perfeito,
E com o qual me perfumo:Eu a myrrha que costumo
Trazer aqui em meu peito,
É mesmo aquelle a quem amo.
Nunca apanhei outro ramo
Nem outro alcanfor colhi
Nas hortas dos arredores
Da cidade de Engaddi.