A SULAMENSE
—Toda em flôr, como está bella!
Mas lá o ter flôr que monta?
Se as boas das raposinhas
A tomam á sua conta,
Depois a uva que é d'ella?
Bons laços se lhe hão-de armar,
Que ellas dão cabo das vinhas
Se ninguem as apanhar.Tu és meu; e eu tambem
Sou tua, de mais ninguem.
Nós somos como um casal
De corcinhas, com effeito;
Andamos sempre a vêr qual
Guarda ao outro mais respeito
E lhe ha-de ser mais leal.
Logo ali de manhãsinha,
Ou pela fresca, á tardinha,
Quando a corça e o veado
Volta aos valles de Belher,
Cá ficas sendo esperado:
Não te esqueça, haja cuidado,
Vê lá o que has-de fazer.
III
SONHO
A SULAMENSE
—Não sei bem que sonho tive
Esta noite, que acordei
Sobresaltada, e que estive
Ainda apalpando a cama
Á busca de quem me ama
E a quem ama; não achei:
Levantei-me, rodeei
A cidade toda em roda,
Corri a cidade toda,
Busquei tudo, não achei.
Na rua pergunto á ronda:
O meu amante que é d'elle?
Não ha ninguem que responda.
Vou andando; a poucos passos
Vi vir um vulto: é aquelle.
Chega e digo-lhe depois
De o apertar nos meus braços:
Quem se ama como nós dois,
Só em mudando de estado
É que vive descançado.
Anda d'ahi, vamos pois
Ao quarto mesmo onde dorme
Minha mãi que me gerou
(Que eu tua ainda não sou,
Nem tu és meu, meu amigo!)
A pedir a nossos paes
A sua benção, conforme
Costumam fazer os mais,
E é já um costume antigo.
SALOMÃO
—Pela corça e o veado,
Moças de Jerusalem!
Não a acordeis, cuidado,
Deixai dormir o meu bem
Um somno bem socegado.